Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017

22.1.2007

Na morte de Elena Muriel. Morreu ontem Elena Muriel Ferreira de Castro. Foi das mulheres mais bonitas que conheci. Viúva de Ferreira de Castro, conhecera-o há 70 anos, no Estoril, ela com a sua família refugiando-se em 1936 da borrasca que se anunciava no país vizinho que era o seu; ele refugiado do tumulto do Chiado dos cafés e da conversa fiada, numa pequena casa que arrendara para escrever.

O seu encontro deu-se no atelier de Guilherme Filipe, nas Arcadas do Parque. O pintor desafiara Castro a posar para a jovem pintora espanhola, e este acedeu de imediato, fascinado pela beleza e frescura daquela jovem encantadora.
Ela tinha 23 anos e era filha-família; ele, 38, e era escritor, um autor em plena explosão das suas capacidades efabulatórias: em 1928 reeinventara(-se) com Emigrantes, diferente de tudo quanto imprimira até então, e também de tudo o que o romance português até lá apresentara aos leitores; A Selva, de 1930, fora a poderosa confirmação da veia iniciada com o livro anterior: nunca se escrevera nada como aquilo sobre a Amazónia, e hoje persiste como uma das grandes narrativas em língua portuguesa; Eternidade (1933), uma interrogação à morte, motivada pelo falecimento da sua primeira companheira, Diana de Liz, com quem vivera entre 1927 e 1930; é um livro da insurgência do homem contra o seu destino finito, mas também de rejeição do atavismo social que originava o lumpen operário e camponês, livro libertário por excelência, devorado, como os anteriores e os seguintes, pelos jovens futuros neo-realistas; em 1934, Terra Fria, análise do microcosmo quase proto-medeival do Barroso, valeu-lhe o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências.
Castro estava, pois, em grande: vivia dos seus livros e para os seus livros, que entretanto começavam a ser traduzidos. Não o suficiente, porém, para convencerem os pais de Elena a permitirem qualquer espécie de relacionamento, forçando-a a viajar para a Argentina, suficientemente longe de um artista, talvez boémio, que outro modo de vida não tinha.
Elena Muriel, contra tudo e todos, arrostou com a ira familiar, pais e irmã mais velha, e sozinha embarca para Paris, onde se encontra com Castro, aí casando em 1938. Os laços familiares só se reatam após o nascimento da filha de ambos, em 1945.
Juntos deram a volta ao mundo, em 1939. Ao contrário do que acima foi descrito, o percurso literário de Castro, que parecia ser luminoso, rapidamente se transformou num pesadelo, em face da Censura, irredutível quanto aos temas que ele desejara tratar. Um romance tendo a Revolta da Andaluzia (1931) como pano de fundo -- O Intervalo -- ficou na gaveta até 74; uma peça encomendada por Robles Monteiro para o Teatro Nacional, o problema da pena de morte como tema central, é censurada nas vésperas da representação; romances iniciados e que não passavam dos primeiros capítulos, por nem sequer valer a pena insisitir mais, ficaram na gaveta. Foi isto que levou Castro a escrever relatos de viagens. Elena acompanhou-o, e está muito presente na narrativa, e nas fotografias que fez, e nos motivos que pintou. A sua pintura de cromatismo suave, viveu largos anos na sombra do grande escritor; além disso, uma intoxicação provocada pelas tintas obrigou-a a suspender por um longo período o trabalho artístico, que retomará, episodicamente, já após a morte do seu marido, e ainda em homenagem a este, como podemos ver no Museu Ferreira de Castro, em Sintra, e na Biblioteca de Ossela (Oliveira de Azeméis).
Bati-lhe à porta em 199o/91. Preparava o meu primeiro trabalho de algum fôlego sobre ele. Nunca me esquecerei de quanto isso era importante para ela, apesar de uma injusta noção de segundo plano em que muitos a tiveram na vida do escritor. É certo que Diana de Liz foi uma intensíssima e breve relação de três anos, terminada tragicamente, deixando Ferreira de Castro à beira da loucura e do suicídio; mas os quase 40 anos de vida em comum que José Maria e Elena partilharam, tiveram esse grande horizonte da madurez do romancista pleno de A e a Neve, A Curva da Estrada, A Missão, O Instinto Supremo, do artista de referência na difícil oposição ao salazarismo, na consagração nacional e internacional da sua obra, e no súbito apagamento mediático que se dá com a sua morte, dois meses após o 25 de Abril. Ela que se habituara com ele às luzes da ribalta, faria o resto de caminho como que perplexa por esse desinteresse. Desinteresse que é só aparente e mediático -- por isso, superficial --, provam-no as reedições sucessivas, os filmes, os colóquios, as «obras completas» que do Círculo de Leitores à Planeta Agostini o foram pedestalizando. Mas Castro era já um autor póstumo, en fase de reavaliação e redescoberta; e foi com essa posteridade, umas vezes demasiado distraída, outras analítica porventura em excesso, que ela teve de viver os últimos trinta anos da sua vida, como se ela própria vivesse um tempo que já não era o seu.
De Elena Muriel, guardo o sorriso de uma senhora de idade, a quem, a certa altura, a vida correspondera e gratificara pela beleza que emprestara a quem a via; e guardo a certeza do grande amor pelo seu marido e pela obra que nos legou. Nunca a esquecerei.
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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

20.1.2007

Fiama Hasse Pais Brandão. Acabo de ler no Insónia que morreu a Fiama Hasse Pais Brandão. Morreu, portanto, um dos maiores poetas da segunda metade do século XX. Não assinalei o falecimento do Cesariny, embora devesse tê-lo feito -- mais que não fosse por tê-lo aqui, esplendoroso, na «Antologia Improvável» --, porque o coro dos lamentos era já ensurdecedor. Suspeito que com Fiama tudo se passará com mais discrição. Para além da sua poesia apreciei também essa seriedade. Uma seriedade partilhada com as duas grandes vozes poéticas vivas ainda entre nós, esperemos que por longos anos: Alberto de Lacerda e Herberto Helder.

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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

17.1.2007

Mais «Grandes Portugueses»... O momento da noite da apresentação dos chamados «defensores» dos 10+ foi quando Helder Macedo disse a uma transbordante Ana Gomes que o Vasco da Gama era uma personagem do Camões.

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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2017

15.1.2007

Ainda os "Grandes Portugueses". Se daqui a umas dezenas de anos voltarem a fazer um concurso idêntico, não creio que o Salazar, o Cunhal ou até o Sousa Mendes venham a estar nos 10+. Já o mesmo não digo quanto ao Pessoa.

publicado por RAA às 19:50
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Domingo, 8 de Janeiro de 2017

15.1.2007

Os Grandes Portugueses. E não é que, apesar de tudo, o público foi mais avisado do que os organizadores deste concurso? Quatro figuras ligadas aos Descobrimentos (dois mentores -- Infante e D. João II --, um agente -- Vasco da Gama -- e o cantor deles -- Camões, simultaneamente soldado do Império); o fundador, Afonso Henriques; Pombal, o estadista que com as suas grandezas e misérias subsiste enquanto tal no imaginário da nação. Quatro figuras da contemporaneidade: os incontornáveis Salazar e Cunhal, assim votados pelo ímpeto sectário, fenómeno compreensível e explicável. A presença de Pessoa reconforta-nos pelo modo como a sensibilidade colectiva continua, de alguma maneira, a manifestar um pendor lírico, uma necessidade estética. Aristides de Sousa Mendes, o Homem que de tudo abdicou em nome da sua consciência e da Humanidade é a boa surpresa disto tudo. Não votei na primeira volta, não tenciono votar agora; mas se o fizer fá-lo-ei no amor imenso, até ao sacrifício, que Aristides de Sousa Mendes representa.

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Sábado, 31 de Dezembro de 2016

10.1.2007

Sobre a incomunicação. a incomunicação entre ricos e pobres, norte e sul, cristãos e muçulmanos, estado e cidadãos, marido e mulher, pais e filhos, irmão e irmão, nós e nós mesmos, como tudo seria menos árduo se houvesse tempo e disposição para comunicar com o(s) outro(s).

[a propósito de Babel, de Alejandro González Iñarritu]
publicado por RAA às 02:56
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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2016

8.1.2007

Jornais. Sempre tive má impressão do jornalismo, mesmo quando o pratiquei, felizmente por um breve período. Se o nosso jornalismo televisivo é péssimo -- os canais noticiosos (o da sic, em especial) aí estão para o demonstrar em toda a sua pobreza, os jornais não lhes ficam atrás. Mas há dias com boas surpresas. Já aqui escrevi que o melhor suplemento que se publica é o 6.ª, do DN; mas o Público continua a ser o que ainda me vai satisfazendo melhor, enquanto diário de informação geral (não leio semanários há vinte anos; e desde o fim da primeira Grande Reportagem, de boa memória, que perdi o hábito de comprar revistas).

A imprensa é o espelho de uma sociedade; pelas amostras, a nossa deixa muito a desejar.Hoje, porém, leio no jornal 4 excelentes artigos de opinião 4, que me vieram lembrar o que em tempos foi considerado o papel dos jornais enquanto veículos de (in)formação e a sua importância para a sedimentação de uma vida pública menos primária, menos argentária, menos futebolística, menos frívola; pelo contrário: mais sofisticada, mais cívica, mais culta, mais séria.

Como os links estão sujeitos a assinatura, transcrevo aqui breves passagens:

De António Paim: «A ideia da democracia grega sempre exerceu uma influência enorme no imaginário ocidental. Não se trata de abdicar de tal legado mas de considerá-lo no que é típico do regime democrático: o carácter participativo. A doutrina do governo representativo tem o mérito de preservar tal característica, explicitando o que é essencial à convivência social: a negociação dos inevitáveis conflitos.» («O que o governo representativo acrescenta ao legado grego»).

De Laura Ferreira dos Santos: «Quem decide do que eu consigo suportar? O pessoal médico? Quando estou grave e irrecuperavelmente doente, passo a pertencer ao Estado ou a uma ortodoxia religiosa?» («A morte assistida de Welby: questões bioéticas e religiosas»).

De Carlos Pacheco: «Foi com o liberalismo que o esbulho, a desordem e a impunidade na administração colonial atingiu dimensões antes impensáveis. Enquanto no regime absolutista houve capitães-generais e ouvidores que se se mostraram por vezes menos preocupados com o interesse público do que com o desejo de amassar fortuna pessoal, a Metrópole, apesar de tudo, nem sempre condescendeu com estes hábitos.» («Pilhagem das colónias»).

De João Paulo Barbosa de Melo: «O ser humano distingue-se dos restantes mamíferos por não ver apenas com os olhos, por ser capaz também de "ver" através da ciência, da razão, da imaginação, das convicções.» («Tem sentido legalizar hoje o aborto?»).

É por isto, por nos interpelar, por nos ajudar a reflectir e suscitar a discussão, por ser um factor de civilização, que vai valendo a pena continuar a comprar o jornal.
publicado por RAA às 17:33
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Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2016

3.1.2007

Talvez. Talvez por ser homem, talvez por ser contra o aborto, talvez por não ser moralista, interessava-me mais estar agora a discutir a eutanásia.

***

É preciso ser-se um grande estupor para negar a alguém consciente a possibilidade de, numa situação-limite, pôr fim à sua própria vida da forma mais tranquila, auxiliado por quem se disponha a ter essa piedade última.
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Domingo, 25 de Setembro de 2016

30.12.2006

Este ano, um bom ano que nos livrou de alguns indesejáveis, foi incrivelmente mau para a justiça que se lhes devera ter feito. Milosevic morto a meio do processo em Haia, sem que o defunto Tudjman fosse, postumamente embora, responsabilizado pela barbárie balcânica. Houve também o Pinochet, essa fresca enguia. Quanto ao Saddam, compreende-se que os americanos, entre outros..., não estivessem muito interessados em revolver o passado comum.

O julgamento e rápida execução do «Carniceiro de Bagdad», com base em apenas uma das suas muitas atrocidades, embora das mais hediondas, é revelador da prontidão com que os americanos se quiseram ver livres deste empecilho, outrora aliado. Saddam Hussein não foi julgado por todo o seu consulado de terror. E sabemos, infelizmente, que os criminosos que em Washington podiam exibir no cadastro o massacre de milhares de vidas inocentes, não terão o julgamento a que deveriam ser sujeitos, em nome da decência.
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

28.12.2006

Uma leitura da presença (1).  O recente centenário do nascimento de Lopes-Graça fez-me ir à gaveta retirar um estudo com meia dúzia de anos destinado a uma colectânea de correspondência com os «presencistas», grupo a que, por direito próprio, o autor de Música e Músicos Modernos pertence. Ele aqui fica, em primeira mão.

 
Liberdade de criação e expressão, recusa de subordinação a tudo que não fosse a verdade do artista, consequente afirmação da sua independência em face dos poderes instituídos -- condição necessária para a autenticidade da criação como manifestação do que de mais genuinamente o artista traz em si --, rejeição do academismo, do formalismo e da contrafacção: este, a traços largos, o programa da presença, revista literária que se publicou em Coimbra, entre 1927 e 1938, com uma segunda série saída em Lisboa, em 1939 e 1940.
Com a Seara Nova, de Raul Proença, Jaime Cortesão, Câmara Reis e António Sérgio, entre outros, iniciada em 1922 -- embora não descurando a literatura, procurava antes de tudo exercer um pedagogismo cívico que não cabia nos propósitos da folha coimbrã --, apresentam-se-nos ambas como as principais referências éticas da vida cultural portuguesa, no que a revistas culturais respeita, entre as duas guerras mundiais. Não por acaso, de resto, se constata a preeminência de ambas, cujas afinidades na respectiva área de intervenção teríamos gosto em explorar, não fosse tal confronto comprometer a razoabilidade das dimensões da apresentação deste epistolário. (1)
 
(1) Recorde-se a funda admiração que Régio consagrou a António Sérgio, e também a sua importante colaboração na Seara, com destaque para as «Cartas do nosso tempo», dadas à estampa na década de 30 (ver Isabel Cadete NOVAIS, «Colaboração de José Régio em publicações periódicas», Boletim, n.º 2, Vila do Conde, Câmara Municipal / Centro de Estudos Regianos, 1998, p. 5.)
 
(continua
publicado por RAA às 22:14
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