Segunda-feira, 25 de Maio de 2015

17.7.2005

A SELVA como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (15). «A mesa, que adivinhava lá dentro, com toalha branca, cristais e vinhos, enquanto ele comia na cozinha, ainda de mãos engelhadas pela água onde lavara as garrafas, provocava-lhe nova humilhação. [...] que pensaria o pai, se ainda vivesse, com aquele seu orgulho de velho general, que o lugar-tenente do rei exilado recebia de quando em quando, ouvindo-lhe respeitosamente as sugestões para a restauração da monarquia? Com uma severa ideia de classes, habituado a ser obedecido e servido, sem pensar nos que lhe obedeciam e serviam, que diria ele se o visse ali, àquela mesa, como outrora a criada lá de casa? A criada era um ser à parte. Ela e mesmo os homens que trabalhavam na quinta do Minho onde a família ia passar o Verão, aquela quinta, pequena mas tão simpática, que o pai herdara e depois vendera, quando os seus frequentes auxílios às conspirações monárquicas lhe criaram dificuldades de dinheiro, porque dava mais do que podia, mais até do que davam muitos que eram ricos».

[...] «Se não fosse a sua generosidade, sempre que se tratava de ressuscitar a monarquia, ou se houvesse aceitado gordas situações em bancos e poderosas companhias, à sombra da república, como alguns fizeram, o pai não teria deixado, ao morrer, apenas o seu montepio de austero militar e ele não se encontraria agora ali, a sofrer a vida dos miseráveis e dos escravos. [...]
De cara sem ruga de enfado, João levava agora a cafeteira e as chávenas para a sala. Seguindo-lhe os movimentos de servo, Alberto associou-os aos da velha criada da casa paterna, que sempre tolerara pacientemente os seus caprichos de filho único e sempre, até o fim, o tratara por «meu menino». Essa recordação incomodava-o agora, pela primeira vez e dum modo que até aí desconhecia: «Eu próprio tratava a Maria como um ser à parte».
[...]
Levantou-se também.
-- Não quer mais nada?
-- Não, senhor João. Muito obrigado. -- E sentiu uma súbita ternura pelo cozinheiro, como se através dele a veiculasse para a velha Maria, ainda ocupando o seu espírito.» Cap. IX, 32ª ed., pp. 189-191.
 
Dois aspectos importantes a sublinhar: o progressivo sentimento de fraternidade de Alberto para com os que se encontram numa situação adversa, como lhe está a suceder; a evocação do pai, velho general monárquico honrado, que, ao contrário de outros, não caiu no regaço da República triunfante: o regime de hoje acolhia e promovia os inimigos de ontem, indício de que as questões essenciais não estariam na natureza dos regimes.
publicado por RAA às 00:27
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