Domingo, 31 de Maio de 2015

18.7.2005

A SELVA como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (18). 

«"[...] E se Juca descobrisse? Se descobrisse que fora ele quem fornecera a lima?"
[...] "E se descobrisse?" Os nervos entumeceram-se-lhe numa súbita coragem. "Fizera muito bem! Fizera muito bem!" -- repetiu a si próprio. -- "Aqueles homens já não deviam nada. Há muito tempo que tinham pago, quatro ou cinco vezes mais do que o seu justo valor, tudo quanto haviam consumido. Era uma exploração em cadeia. A casa aviadora explorava Juca, ele, por sua vez, explorava os seringueiros, que eram, no fim, os únicos explorados. Mas Juca podia, ao menos, protestar, enquanto que aos seringueiros nem sequer isso seria permitido."»
 
Cap. XV, 32ª ed., p. 263.
 
Nota: A passagem em itálico não consta da edição inicial. Embora uma certa crítica tivesse papagueado que nos livros de Ferreira de Castro não havia luta de classes, entre outros disparates, Castro terá achado por bem, em edições posteriores, explicitar melhor a natureza das relações económicas do circuito trabalhador-patrão-intermediário. Daqui resulta algum aligeirar do peso da carga predatória do patrão, dado, apesar de tudo como uma peça da engrenagem. Não por acaso. Em Castro é difícil encontrar maniqueísmo. No capítulo anterior, a propósito do famigerado Juca Tristão, concede-lhe um natural estatuto de humanidade, com as suas claridades e as suas sombras: «Era certos que os homens são bons ou maus conforme a posição em que se encontram perante nós e nós perante eles; e falso o indivíduo-bloco, o indivíduo sem nenhum contradição, sempre, sempre igual no seu procedimento.» (Cap. XIV, 32ª ed., pp. 258-259). Esta posição, que é explorada noutros romances, como A Lã e a Neve (1947), faz com que a visão do mundo dada por Ferreira de Castro através dos seus livros fuja ao esquematismo dogmático, intolerante, prisioneiro de uma doutrina determinada e, por conseguinte, não-livre.
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Quarta-feira, 27 de Maio de 2015

18.7.2005

In quintessence. Ao ouvir o quarto álbum dos Squeeze, East Side Story, datado do já distante ano de 1981, recordei o pop mais pop da new wave britânica. Os Squeeze tiveram na sua formação inicial o pianista Jools Holland, autor do meu programa preferido, o «Later with J. H.», da nunca por demais louvada B.B.C. Rock da melhor tradição beatle, muito cantarolável. Fez-me recordar uns versos da variante m de A Passagem das Horas, de Álvaro de Campos, extraídos da também nunca por demais exaltada edição crítica de Teresa Rita Lopes, o Livro de Versos: «Faz tocar a banda de bordo -- / Musicas alegres, banaes, humanas, como a vida --».

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Terça-feira, 26 de Maio de 2015

17.7.2005

A SELVA como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (16). 'Alberto não lhe dava atenção. Prendia-o a carta materna, com a notícia de que os republicanos haviam, enfim, resolvido amnistiar os insurrectos de Monsanto.

[...]
"Os republicanos... Os monárquicos..." Tudo aquilo lhe soava imprevistamente a oco, longínquo e sem sentido. Arrefecera-lhe a paixão, as suas antigas ideias pareciam-lhe de tempos remotos, dum outro eu que se perdera e esfumara na lonjura. Examinava agora, a sangue-frio, a sua causa vencida e nenhum ódio guardava para os adversários que combatera anos antes. [...] Cada vez sentia menos o domínio das teorias que o haviam forçado a emigrar e parecia-lhe mesmo que sobre elas se iam condensando, de modo ainda mal definido, uma razão diferente e um sentimento de justiça nova, mais profunda e mais vasta. "Em muitas das suas expressões, a vida rastejava ainda, em tanto mundo e ali mesmo, à altura dos pés humanos; e não era decerto com os velhos processos, já experimentados durante dezenas de séculos, que ela poderia ascender aos níveis que o cérebro entrevia. Não era, decerto, no que estava feito, era no que estava por fazer, que o homem viria a encontrar, talvez, o melhor de si próprio."
 Cap. XII, 32ª ed., pp. 225-226.
 
O redentorismo libertário tem aqui uma eloquente expressão, com a rejeição da divisão política, superficial ou dogmática, em favor de uma ideia mais vasta de ascensão comunitária projectando-se num futuro: «era no que estava por fazer, que o homem viria a encontrar, talvez, o melhor de si próprio.» Sem messianismo, como às vezes se diz, mas antes com uma convicção profunda na capacidade de auto-superação do género humano: a libertação do homem tem de ser feita pelo próprio homem. Este humanismo não se queda em especulação de gabinete, mas abre-se à acção; é, por isso, voluntarista, reactivo, proactivo, revolucionário, libertário, anarquista.
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Segunda-feira, 25 de Maio de 2015

17.7.2005

A SELVA como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (15). «A mesa, que adivinhava lá dentro, com toalha branca, cristais e vinhos, enquanto ele comia na cozinha, ainda de mãos engelhadas pela água onde lavara as garrafas, provocava-lhe nova humilhação. [...] que pensaria o pai, se ainda vivesse, com aquele seu orgulho de velho general, que o lugar-tenente do rei exilado recebia de quando em quando, ouvindo-lhe respeitosamente as sugestões para a restauração da monarquia? Com uma severa ideia de classes, habituado a ser obedecido e servido, sem pensar nos que lhe obedeciam e serviam, que diria ele se o visse ali, àquela mesa, como outrora a criada lá de casa? A criada era um ser à parte. Ela e mesmo os homens que trabalhavam na quinta do Minho onde a família ia passar o Verão, aquela quinta, pequena mas tão simpática, que o pai herdara e depois vendera, quando os seus frequentes auxílios às conspirações monárquicas lhe criaram dificuldades de dinheiro, porque dava mais do que podia, mais até do que davam muitos que eram ricos».

[...] «Se não fosse a sua generosidade, sempre que se tratava de ressuscitar a monarquia, ou se houvesse aceitado gordas situações em bancos e poderosas companhias, à sombra da república, como alguns fizeram, o pai não teria deixado, ao morrer, apenas o seu montepio de austero militar e ele não se encontraria agora ali, a sofrer a vida dos miseráveis e dos escravos. [...]
De cara sem ruga de enfado, João levava agora a cafeteira e as chávenas para a sala. Seguindo-lhe os movimentos de servo, Alberto associou-os aos da velha criada da casa paterna, que sempre tolerara pacientemente os seus caprichos de filho único e sempre, até o fim, o tratara por «meu menino». Essa recordação incomodava-o agora, pela primeira vez e dum modo que até aí desconhecia: «Eu próprio tratava a Maria como um ser à parte».
[...]
Levantou-se também.
-- Não quer mais nada?
-- Não, senhor João. Muito obrigado. -- E sentiu uma súbita ternura pelo cozinheiro, como se através dele a veiculasse para a velha Maria, ainda ocupando o seu espírito.» Cap. IX, 32ª ed., pp. 189-191.
 
Dois aspectos importantes a sublinhar: o progressivo sentimento de fraternidade de Alberto para com os que se encontram numa situação adversa, como lhe está a suceder; a evocação do pai, velho general monárquico honrado, que, ao contrário de outros, não caiu no regaço da República triunfante: o regime de hoje acolhia e promovia os inimigos de ontem, indício de que as questões essenciais não estariam na natureza dos regimes.
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Domingo, 24 de Maio de 2015

16.7.2005

A SELVA como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (12). «Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir a pele de fera. [...]» Cap. V, 32ª ed., p. 106.

 
Nota: selva metafórica e selva literal, em ambas presente a necessidade vital de superação, na «luta desesperada de caules e ramos».
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Segunda-feira, 18 de Maio de 2015

15.7.2005

A selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (10). «O comendador Aragão era célebre em toda a Amazónia, pela sua enorme fortuna, vastidão de negócios e curiosa biografia. Fora dos que viera de tamancos, rude, analfabeto, as nádegas juvenis sempre expostas aos pontapés dos superiores, nessa época, ainda não muito distante, em que o comércio português dentro e fora da metrópole, se caracterizava por vida autoritária e rotineira. Casando a humildade com a esperteza, de marçano ascendera a caixeiro e, mais tarde, o amo, tendo de ir curar o fígado a Portugal, entendera que a melhor forma de não ser desfalcado pelos empregados, enquanto estivesse ausente, era fazer de um deles seu sócio. Aragão levara o negócio a grandes prosperidades e quando, anos depois, o abandonou, foi para se dedicar a outro mais rendoso. À mercearia sucedera um escritório de comissões e consignações -- porta aberta para todas as grandes fortunas, nesse tempo em que não era simples metáfora chamar-se oiro negro à borracha.» Cap. III, 32ª ed., p. 68.

 
Nota: um retrato de self made man, retrato mesquinho, sem o lado negro que se verá em Juca Tristão. É em Manaus que Alberto pede emprego ao «comendador» Aragão, chegando a invocar a sua condição de exilado político. O mesquinho Aragão, ao contrário do que esperara Alberto, recrimina-o por não tratar da sua vidinha, em vez ter andado «aos tiros e às revoluções». Para aliviar a consciência da recusa, oferece uma esmola a Alberto, que orgulhosamente recusa.
Fiquemos, para já, com um primeiro retrato de Juca Tristão, o dono do seringal «Paraíso»:
 
«Baixo e com o sangue megro, graças a sucessivos cruzamentos, já insinuando apenas a sua remota existência, o dono do Paraíso, de mãos papudas rebrilhando anéis, mal disfarçava, sob o sorriso que lhe abria as faces largas, o olhar duro e enérgico, agora sombreado pelo chapéu.» Cap. IV, 32ª ed., p. 84.
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15.7.2005

A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (9). «Ia a voltar-se para encarar quem punha dúvida na sua resolução, que era firme, mas logo se deteve numa atitude de orgulho juvenil. Tanto como aquele que cerceava a liberdade, indignava-o a alma submissa dos que acatavam, silenciosa e passivamente, a ordem iníqua. "iria! Iria custasse, o que custasse!»Cap. III, 32ª ed., pp. 64-65.


Nota: Aportados a Manaus, numa escala, os futuros seringueiros são proibidos de desembaracar para uma simples visita à cidade pelo angariador de mão-de-obra, Balbino. O trecho referido, referente à atitude de Alberto em não acatar essa reflecte um espírito de insubmissão e rebeldia, além de desgosto pela passividade dos restantes trabalhadores.
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Domingo, 17 de Maio de 2015

15.7.2005

A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (8). «Os olhos inexperientes não encontravam referência nestas margens aparentemente sempre iguais, na vegetação que se repetia, senão na espécie, no entrançado, despersonalizando o indivíduo em prol do conjunto, único que ali se impunha. Cada curva se parecia com outra curva, cada recta com a recta antecedente; onde não exisitia barraca ou cidade, o espírito quedava-se, perplexo, a formular a pergunta íntima: "Já passei aqui ou é a primeira vez que passo aqui?"» Cap. III, 32ª ed., pp. 57-58

Nota: abordagem de um tema fundamental, o da importância do indivíduo em face do colectivo

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Sábado, 16 de Maio de 2015

15.7.2005

Aznar, Bush e Blair...  As palavras-de-ordem nas manifestações, da esquerda, pelo menos, são muito prosódicas e devedoras da poesia popular. Foi o que me ocorreu naquela célebre manif contra a guerra no Iraque, que tem andado deveras irritante neste blogue que se pretende pacífico (mas não pacifista). A palavra-de-ordem do momento era: «Aznar, Bush e Blair / esta guerra ninguém quer!»:


Quando eu era jovem, as massas industriaram-me na poesia popular.
SOARES LADRÃO / ROUBA O PÃO
alertavam-me as paredes
com a força das convicções
e dos erros ortográficos.
Por vezes os versos eram brancos
embora vermelhos
por vezes eram brancos.
Assim o muro da recta do Dafundo
SOARES LADRÃO AMDA A ROUBAR O DINHEIRO DO POVO GATUNO VAI PARA A RUA JÁ!
podíamos ler nos idos de 70
e até algum 80.
Ainda hoje a poesia popular me persegue.

3-VII-2003
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Terça-feira, 12 de Maio de 2015

15.7.2005

A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (6).

«A sua epiderme contraía-se sob a força do asco que o convés imundo lhe causava. Sentia-se inadaptado, estranho ali, quase inimigo das vidas que o cercavam, aparentemente alheias a tudo quanto não fossem imposições do corpo e aderindo, resignadas, a todas as contigências.
Magoava-o a facilidade com que outros recrutados dormiam tranquilamente um sono que era, para o egoísmo dele, quase uma afronta.
E sorria, depreciativamente, ao pensar no apostolado da democracia, nos defensores da igualdade humana, que ele combatera e o haviam atirado para o exílio. «Retóricos perniciosos! Queria vê-los ali, ao seu lado, para lhes perguntar se era com aquela humanidade primária que pretendiam restaurar o mundo. Via-se o que tinham feito! Tudo na mesma, sempre a mesma violência, a demagogia até. E ainda havia os que queriam ir mais longe no desvario, destruindo fundo os caboucos sociais, desmoronando uma obra construída e cimentada pela velha experiência dos séculos. E para quê? Para quê? Possuíam alma essas gentes rudes e inexpressivas, que atravancavam o Mundo com a sua ignorância, que tiravam à vida colectiva a beleza e a elevação que ela podia ter? Se a possuíssem, se tivessem sensibilidade, não estariam adaptados como estavam àquele curral flutuante. Mas não. Mas não. Era o seu meio e, se as transplantassem, ficariam tímidas, desconfiadas e murchas, como bichos selvagens nos primeiros dias de jaula. Ele e os seus, declarados inimigos da igualdade, defensores de élites, eram bem mais amigos dessa pobre gente do que os outros, os que a ludibriavam com a ideia duma fraternidade e dum bem-estar que não lhe davam nem lhe podiam dar. Só as selecções e as castas, com direitos hereditários, tesouro das famílias privilegiadas, longamente evoluídas, poderiam levar o povo a um mais alto estádio. Mas tudo isso só se faria com autoridade inquebrantável -- um rei e os seus ministros a mandarem e todos os demais a obedecer. O resto era fantasia maléfica de sonhadores ou arruaceiros. (...)»
 
Cap. II, 32ª ed., pp. 46-47.
 
Nota: O extremar de posições é-nos dado pelos preconceitos da personagem principal, Alberto, um estudante de Direito, monárquico insurrecto de Monsanto, e por isso exilado; e um conjunto de gente ignara, acomodada naquele «curral flutuante» e conduzida em pura inércia de sobrevivência, um pouco o que acontece com os rebanhos. Não por acaso as noções de fraternidade e bem-estar, palavras-chave das doutrinas de revolução social, aparecem ligadas neste contexto de animalização dos futuros seringueiros, contrário, por isso, à sua intrínseca dignidade de homens. Este conceito de dignidade, geral e individual, é fundamental em Ferreira de Castro.
 
publicado por RAA às 13:01
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