Segunda-feira, 29 de Junho de 2015

23.9.2005

A condecoração. Como estive a ouvir o The Joshua Tree, lembrei-me da recente polemiqueta em torno da condecoração atribuída pelo PR aos U2. Pobre Sampaio melómano. Ao contrário da surdez notória dos que normalmente são investidos nestas magistraturas, ele distinguiu-se por distinguir grandes figuras da cena musical. Lembro-me, à primeira, do tenor e maestro Placido Domingo e do pianista Alfred Brendel. Suspeito de que o Presidente não será um apreciador por aí além do som destes fabulosos irlandeses, e que terá querido vincar, mais do que a música, a acção global de Bono Vox. Ainda assim: o significado de Portugal ter reconhecido o mérito destes músicos na luta contra as injustiças mundiais é de tal maneira nobre, que as discussões em torno das suas indumentárias só me fizeram sorrir. E, vamos lá admitir, para os U2 uma condecoração portuguesa (ou outra qualquer, concedamos) não passará disso mesmo: um simpático adereço. Só a música importa.

publicado por RAA às 23:48
link do post | favorito

20.9.2005

Portinari e os seus muitos Retirantes -- a miséria a beleza a tragédia.

publicado por RAA às 01:59
link do post | favorito
Domingo, 28 de Junho de 2015

19.9.2005

Adágio. Um drama pessoal está sempre por detrás do mais aceitável que já escrevemos.

publicado por RAA às 02:00
link do post | favorito (1)
Sábado, 27 de Junho de 2015

18.9.2005

Nojo aos cães. De um lado, gente sem decoro, homos e heteros, um lumpen cultural disposto a vender-se à primeira lixeira televisiva que apareça, e dê mais. Do outro, escória social sem passado nem futuro. A enquadrar os cães, umas luminárias engravatadas, escumalha moral, normalmente medíocres ressentidos com a vida. A rosnar, uns patetas da acção. Como o que hoje vi no Telejornal, uma espécie de berbere a clamar contra as invasões dos estrangeiros...

Estes mentecaptos deram já uma excelente oportunidade ao lobby que tanto os incomoda (e que evidentemente, como sucede com qualquer grupo social organizado, existe) para a autovitimização, com a estúpida associação homossexualidade=pedofilia. Parece, aliás, que começou hoje a recolha de assinaturas para a petição que pretende legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, apenas um primeiro passo para conseguir a adopção, «direito» pelo qual elas se vão bater denodadamente. Aquilo que os animais que desfilaram esta tarde afirmam querer evitar. Viva Portugal!
 
publicado por RAA às 00:27
link do post | favorito
Quinta-feira, 25 de Junho de 2015

14.9.2005

A song before sunrise. Quando o jovem maestro Thomas Beecham resolveu trabalhar a música serena e aparentemente idílica do seu compatriota Delius, este, residente em França, era pouco conhecido dos melómanos britânicos, situação que seria alterada pelo futuro grande regente. Leio numa passagem do último secretário de Frederick Delius, Eric Fenby (citado num livreto da série «Great Recordings of the Century», A Voz do Dono), que o maestro se deixou impregnar pela poética do seu compositor de eleição, nunca o consultando por julgar que não carecia dos conselhos do criador. E parece que tinha razão ao tomar essa atitude de distanciamento: segundo Fenby, quando Delius ouvia a sua música executada em directo na rádio sob a batuta de Beecham, costumava dizer: «Perfect, Thomas, perfect».

publicado por RAA às 22:42
link do post | favorito
Quarta-feira, 24 de Junho de 2015

9.9.2005

Ratos e homens.

 

But if the while I think on thee, dear friend / All losses are restor'd, and sorrows end.

Shakespeare

No Bosque Proibido, romance de Mircea Eliade, Stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do Metro. No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de Shakespeare, que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam. Os Sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos ceús. Nessa espécie de esgoto, a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.
publicado por RAA às 22:26
link do post | favorito
Terça-feira, 23 de Junho de 2015

5.9.2005

Simca 1000. Tenho para aí uns três anos, sinto-me sentado e mínimo no banco de trás do Simca 1000 da minha Avó Zé, uma das primeiras mulheres a conduzir no Estoril. Era dum tom azul-bebé a coincidir comigo, o primeiro neto.

tags:
publicado por RAA às 23:20
link do post | favorito (1)
Segunda-feira, 22 de Junho de 2015

2.9.2005

Seara Vermelha. Estou a meio do livro. Leio o Jorge Amado desde a adolescência. Tenda dos Milagres, a deliciosa história de Pedro Archanjo, foi a obra que me introduziu no universo deste grande brasileiro. Hoje quase que lamento não ter a pureza dessa época em que me deixava envolver pela surpresa e pelo estupor que me instilava a crua realidade encerrada nos livros do autor de Jubiabá.

Seara Vermelha data de 1946, da fase comunista militante do seu autor. Dedicado a Luís Carlos Prestes, abre com epígrafes deste, de Castro Alves e de Engels. Trata-se de uma odisseia de retirantes -- desses retirantes imortalizados na tela por Portinari -- através da caatinga até São Paulo, terra de oportunidades. Algum desleixo formal que existe na prosa de Amado é largamente compensado pelo boa oficina romanesca; um estilo poético, podendo resvalar, por vezes, para algum empolgamento épico, é logo corrigido pelo realismo das personagens e das situações narradas e também pela gostosa ironia do romancista. Estou a acompanhar uma família alargada, expulsa pelo novo proprietário das terras em que vivia e trabalhava. Jerónimo e Jucundina são, até agora, os protagonistas principais, além dos filhos sobrantes, três netos de uma filha falecida no derradeiro parto (Tonho, Noca e Ernesto), os irmãos de Jerónimo, a louca Zefa e João Pedro, mais a mulher e a filha deste. Sofrem várias baixas durante a viagem, crianças e adultos. Noca faz uma ferida no pé ao correr atrás da sua gata, Marisca, que, contra a opinião dos adultos, insiste em levar na travessia do sertão, único brinquedo da criança de sete anos; contraindo uma infecção, morre pouco depois. E não será sem problemas de consciência, pelo menos de alguns dos seus membros, que a família virá a comer a gata para enganar a fome. Dina, mulher de João Pedro, morrerá de uma espécie de tifo, já a família exausta tem semanas de caminhada. As suas forças pouco mais dão que para um simulacro de exumação. Afastados poucos metros, percebem que os abutres ficaram para trás:
«Juntaram-se num bando irrequieto e barulhento, trocando bicadas entre si, sobre o cadáver. Adiante, Jerónimo que não os via no céu, a persegui-los, imaginava o que se estava passando. Também João Pedro sabia que eles estavam devorando o cadáver de sua mulher. Mas não tinha coragem de voltar, de perder mais tempo, como não tinha mais forças para sofrer nem lágrimas para chorar.» (5ª ed., p. 102).
A minha realidade é outra, já não tenho esses quinze anos em que ficava esmagado depois de ler Capitães da Areia, Mar Morto ouTerras do Sem Fim. A realidade é outra. Vejo no Público de hoje a fotografia dum miúdo iraquiano a chorar a perda de parentes naquela tragédia da ponte, desastre causado pelo medo dos atentados e pelo ajuntamento de peregrinos; vejo cadáveres, lixo e desespero em Nova Orleães, a cidade de Armstrong inimaginável no grau de destruição e caos. Já não me surpreendem estes dramas humanos, como quando era novo, mas ainda tenho, por vezes, de dobrar o jornal, ou afastar o livro, fechar os olhos e respirar fundo.
publicado por RAA às 23:10
link do post | favorito (2)

23.8.2005

Pècus. Que estranhos mecanismos de outiva e que atropelos flagrantes à ortoépia levarão a minha filha mais nova, dois anos, a dizer pècus quando quer identificar insectos? Só se salvam as moscas. Aliás,môcass...

publicado por RAA às 01:06
link do post | favorito
Domingo, 21 de Junho de 2015

23.8.2005

Wild thing. Ao ouvir um velho Best of dos Troggs, lembrei-me do título dum livro de ensaios, Obscuros e Marginados, que é o que me parece ser esta banda inglesa da década de sessenta, ainda hoje activa. (O autor desse volume, já desaparecido, foi João Palma-Ferreira, e não me parece que os rapazes o conheçam de nome.) Algo repetitivos, os Troggs deram, contudo, a sua contribuição para a música pop com temas como With a girl like you ou Wild thing, este com prestígio de cover por Jimi Hendrix. Por mim, fico electrizado com um violoncelo irreverente cujo arco desliza desde o princípio em Anyway that you want me. Inesquecível.

publicado por RAA às 01:41
link do post | favorito

.mais sobre mim

.tags

. todas as tags

.pesquisar

.Maio 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.arquivos

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

blogs SAPO

.subscrever feeds