Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017

22.1.2007

Na morte de Elena Muriel. Morreu ontem Elena Muriel Ferreira de Castro. Foi das mulheres mais bonitas que conheci. Viúva de Ferreira de Castro, conhecera-o há 70 anos, no Estoril, ela com a sua família refugiando-se em 1936 da borrasca que se anunciava no país vizinho que era o seu; ele refugiado do tumulto do Chiado dos cafés e da conversa fiada, numa pequena casa que arrendara para escrever.

O seu encontro deu-se no atelier de Guilherme Filipe, nas Arcadas do Parque. O pintor desafiara Castro a posar para a jovem pintora espanhola, e este acedeu de imediato, fascinado pela beleza e frescura daquela jovem encantadora.
Ela tinha 23 anos e era filha-família; ele, 38, e era escritor, um autor em plena explosão das suas capacidades efabulatórias: em 1928 reeinventara(-se) com Emigrantes, diferente de tudo quanto imprimira até então, e também de tudo o que o romance português até lá apresentara aos leitores; A Selva, de 1930, fora a poderosa confirmação da veia iniciada com o livro anterior: nunca se escrevera nada como aquilo sobre a Amazónia, e hoje persiste como uma das grandes narrativas em língua portuguesa; Eternidade (1933), uma interrogação à morte, motivada pelo falecimento da sua primeira companheira, Diana de Liz, com quem vivera entre 1927 e 1930; é um livro da insurgência do homem contra o seu destino finito, mas também de rejeição do atavismo social que originava o lumpen operário e camponês, livro libertário por excelência, devorado, como os anteriores e os seguintes, pelos jovens futuros neo-realistas; em 1934, Terra Fria, análise do microcosmo quase proto-medeival do Barroso, valeu-lhe o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências.
Castro estava, pois, em grande: vivia dos seus livros e para os seus livros, que entretanto começavam a ser traduzidos. Não o suficiente, porém, para convencerem os pais de Elena a permitirem qualquer espécie de relacionamento, forçando-a a viajar para a Argentina, suficientemente longe de um artista, talvez boémio, que outro modo de vida não tinha.
Elena Muriel, contra tudo e todos, arrostou com a ira familiar, pais e irmã mais velha, e sozinha embarca para Paris, onde se encontra com Castro, aí casando em 1938. Os laços familiares só se reatam após o nascimento da filha de ambos, em 1945.
Juntos deram a volta ao mundo, em 1939. Ao contrário do que acima foi descrito, o percurso literário de Castro, que parecia ser luminoso, rapidamente se transformou num pesadelo, em face da Censura, irredutível quanto aos temas que ele desejara tratar. Um romance tendo a Revolta da Andaluzia (1931) como pano de fundo -- O Intervalo -- ficou na gaveta até 74; uma peça encomendada por Robles Monteiro para o Teatro Nacional, o problema da pena de morte como tema central, é censurada nas vésperas da representação; romances iniciados e que não passavam dos primeiros capítulos, por nem sequer valer a pena insisitir mais, ficaram na gaveta. Foi isto que levou Castro a escrever relatos de viagens. Elena acompanhou-o, e está muito presente na narrativa, e nas fotografias que fez, e nos motivos que pintou. A sua pintura de cromatismo suave, viveu largos anos na sombra do grande escritor; além disso, uma intoxicação provocada pelas tintas obrigou-a a suspender por um longo período o trabalho artístico, que retomará, episodicamente, já após a morte do seu marido, e ainda em homenagem a este, como podemos ver no Museu Ferreira de Castro, em Sintra, e na Biblioteca de Ossela (Oliveira de Azeméis).
Bati-lhe à porta em 199o/91. Preparava o meu primeiro trabalho de algum fôlego sobre ele. Nunca me esquecerei de quanto isso era importante para ela, apesar de uma injusta noção de segundo plano em que muitos a tiveram na vida do escritor. É certo que Diana de Liz foi uma intensíssima e breve relação de três anos, terminada tragicamente, deixando Ferreira de Castro à beira da loucura e do suicídio; mas os quase 40 anos de vida em comum que José Maria e Elena partilharam, tiveram esse grande horizonte da madurez do romancista pleno de A e a Neve, A Curva da Estrada, A Missão, O Instinto Supremo, do artista de referência na difícil oposição ao salazarismo, na consagração nacional e internacional da sua obra, e no súbito apagamento mediático que se dá com a sua morte, dois meses após o 25 de Abril. Ela que se habituara com ele às luzes da ribalta, faria o resto de caminho como que perplexa por esse desinteresse. Desinteresse que é só aparente e mediático -- por isso, superficial --, provam-no as reedições sucessivas, os filmes, os colóquios, as «obras completas» que do Círculo de Leitores à Planeta Agostini o foram pedestalizando. Mas Castro era já um autor póstumo, en fase de reavaliação e redescoberta; e foi com essa posteridade, umas vezes demasiado distraída, outras analítica porventura em excesso, que ela teve de viver os últimos trinta anos da sua vida, como se ela própria vivesse um tempo que já não era o seu.
De Elena Muriel, guardo o sorriso de uma senhora de idade, a quem, a certa altura, a vida correspondera e gratificara pela beleza que emprestara a quem a via; e guardo a certeza do grande amor pelo seu marido e pela obra que nos legou. Nunca a esquecerei.
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Terça-feira, 5 de Julho de 2016

17.11.2006

Com Lopes-Graça, à beira do fim.  Quando há pouco mais de duas décadas me cruzei pela primeira vez com Fernando Lopes-Graça, no Teatro Gil Vicente, em Cascais, num comício de apoio à candidatura de Salgado Zenha à Presidência da República, estava longe de imaginar que viríamos a ter um breve, mas intenso, relacionamento, poucos meses antes da sua morte.

O compositor havia decidido legar o seu riquíssimo espólio ao município de Cascais, onde vivia, destinado à Casa Verdades de Faria (hoje, Museu da Música Portuguesa), onde já se encontravam a magnífica colecção de instrumentos do seu velho amigo e colaborador Michel Giacometti, entretanto falecido, bem como a sua biblioteca especializada. Por razões profissionais, fiz parte da equipa que concretizou o desejo do autor do Canto de Amor e de Morte.
Encontrei-me com ele na Primavera de 1994, no «Marégrafo», onde almoçámos. Lopes-Graça era, para mim, a figura mítica do criador, popularizado pelas Heróicas, mas também do esteta, do teorizador e um nobre exemplo de resistente à ditadura salazarista. Dirigi-lhe a palavra com alguma emoção. Para facilitar o diálogo entre dois estranhos, levei-lhe uma fotografia da década de 50, onde ele aparecia conversando com Ferreira de Castro e Roberto Nobre.
A simpatia mútua surgiu de pronto, e naquele almoço muito se falou de literatura (Graça era um grande escritor, embora nunca assumisse essa condição) e gerações intelectuais de que ele era um dos últimos representantes. Homem da presença e da Seara Nova, fizera a ponte com o neo-realismo, pontificando n'O Diabo e na revista Vértice.
Entre mil-e-uma estórias que alimentaram o prândio -- enquanto cravava os cigarros que lhe estavam proibidos pelo médico e que sistematicamente partia ao meio, para prolongar um prazer que satisfazia como um adolescente que fumasse às escondidas -- , falámos obviamente de Ferreira de Castro e Roberto Nobre -- com quem escrevera um artigo para a Seara, sobre o filme Fantasia (1940), uma das obras-primas de Walt Disney --, de Manuel da Fonseca e José Blanc de Portugal; disse-me que estava a reler o Levantado do Chão, de José Saramago; passámos pelo 25 de Abril, por Picasso, por Stravinsky -- tanta coisa que a minha memória não pôde reter tudo.
Semanas mais tarde, quando visitou a Casa Verdades de Faria, no Monte Estoril, voltámos a falar animadamente dos seus companheiros de geração e dos intemporais confrades que com ele partilharam o destino da escrita -- porque, não o esqueçamos, Lopes-Graça cultivou superiormente a prosa, sendo um notável ensaísta.
Lembro-me de dizer-lhe como lamentava o esquecimento a que estava votado Tomás Ribeiro Colaço -- então uma recente descoberta minha --, monárquico liberal, escritor exilado no Brasil onde veio a morrer, apátrida do Portugal de Salazar, director, nos anos 30, de um importante semanário literário, o Fradique. Daí pulámos para o Eça, pois para além da evocação jornalística do semi-heterónimo Carlos Fradique Mendes, parecia-me haver uma nítida influência do romancista d'Os Maias em Colaço, desde logo por uma implacável ironia de que ambos se serviram. Graça veio, evidentemente, defender a superioridade de Camilo sobre Eça, e também, já no seu século XX, de Aquilino. O mesmo já se não passou com Fialho, para minha surpresa; pareceu-me que o detestava.
Estive na sua casa da Parede pelo menos duas vezes. Senti-me extasiado diante das suas estantes a abarrotar, reveladoras também de um fino gosto bibliófilo. Senti que lhe agradou a avidez com que me lancei aos livros dos escritores portugueses, quase todos com dedicatórias -- e, alguns deles, com que dedicatórias! «Aí estão os autores portugueses», disse-me com aquela entoação das pessoas que não só lêem os livros, como gostam de os ter junto de si, mirara-lhes de longe as lombadas, ir ao pormenor do cólofon.
E lá estavam, copiosos, os volumes de Aquilino, Ferreira de Castro, José Gomes Ferreira, José Régio, Vergílio Ferreira, Carlos de Oliveira, a primeira edição de Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, na editora Sírius, com capa de Álvaro Cunhal...
«O maestro tem aqui preciosidades!...», disse-lhe com evidente entusiasmo. «Ora diga lá, do que aí está, o que acha interessante», retorquiu ele, claramente para experimentar o rapaz com idade para ser seu neto e que lhe invadia em casa para, no cimo de um escadote, remexer as suas estantes, e que, ainda por cima, tinha opiniões sobre escritores que haviam sido seus amigos, privado com ele, trabalhado com ele. «Vá, diga lá a que escritores, dos que aí estão, acha o senhori nteresse», insistiu. Aquele senhor, sem uma ponta de hostilidade, mas irónico -- pelo menos assim o senti --, punha-me claramente à prova. «Bem...», hesitei no meio de tantas possibilidades, e decidi jogar logo pelo seguro, «...o Carlos de Oliveira, por exemplo...» E lá começámos à conversa, gostosa e demoradamente.
Inesquecível uma tarde em que o rádio, sintonizado evidentemente na Antena 2, transmitia o Concerto para violoncelo de Dvorak, gravado não sei quando no Coliseu e dirigido por Pedro de Freitas Branco, Lopes-Graça sentado tendo à frente o seu Bechstein, por vezes a trautear uma passagem, e eu a folhear-lhe as prateleiras...
Muitas foram as estórias que ele me contou, por vezes repetiam-se, mas era sempre um prazer ouvi-lo. Episódios do seu exílio em Paris, nos anos 30, os contactos que tivera com Bernardino Machado («um picuinhas a rever textos») e Jaime Cortesão, que considerava ser um pedante, embora não lhe quisesse apoucar a grandeza. E saltávamos de nome em nome: Vitorino Nemésio, grande amigo com quem se incompatibilizou depois da Revolução, Jorge de Sena, homem com «um feitio terrível», mas «um homem superior».
Morreu umas semanas depois. O pouco que privei com ele não chegou para me fazer sentir seu amigo. Consegui admirá-lo pessoalmente, mesmo já diminuído. Comoveu-me a sua ostensiva militância comunista, que a todo o momento procurava vincar, sabendo eu que esse não fora um percurso sem escolhos. Enquanto vulgaríssimo melómano -- gosto de alguma da sua música, não aprecio outra. Quase que por acaso, quase, revejo estas notas tomadas num caderninho, em 5 de Janeiro de 1995, ao som da sua música. Escolhi o Concertino para Violeta e Orquestra, de 1962, incluído no primeiro disco de Lopes-Graça que comprei, e que para sempre evocará o meu encontro com ele, à beira do fim.
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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2015

18.6.2006

A propósito de «Última dédiva», de Trindade Coelho. Causa-nos sempre grande impressão tomarmos consciência de que uma criança com onze anos e meio -- a idade que tinha Ferreira de Castro quando chegou a sua vez de partir -- tenha emigrado sozinha para o Brasil, (mal) confiada a um vago parente. Muitas crianças, porém, estiveram na mesma situação, entre meados do século XIX e as primeiras décadas da centúria seguinte. Algumas delas lograram ter também um percurso literário. Foi o caso de Francisco Gomes de Amorim (1827-1891) ou de Miguel Torga (1907-1995).

Trindade Coelho (1861-1908) transmite-nos essa angústia num belíssimo conto de Os Meus Amores (1891), intitulado «Última dádiva», mostrando-nos o sofrimento de um pai quando as despedidas se avizinham:
 
 «--Pois são horas de largar, Sr. José, isto vai pràs duas. Não tarda que comece a amanhecer. -- E como estavam à porta de casa: -- Será bom acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai. -- Iam à vela se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.
Mas, à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair pelo banco que estava debaixo do alpendre e desatou a chorar violentamente.
O barqueiro tentou animá-lo, constrangido:
-- Então, Sr. José?... O chorar é lá para as mulheres! Olhem agora que homem! -- E tentava levantá-lo, pô-lo de pé. -- Limpe lá essas lágrimas que vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?
O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os olhos com a manga da camisa.
-- Pois então levante-se lá. -- E segurou-o com força por baixo dos braços. Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil, não fique vossemecê a pensar que o não torna a ver!
Mas era isso mesmo o que ele pensava...
-- Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno! -- concluiu a chorar o José Cosme.
-- Cismas!, lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu! Mais ano mesmos ano, aparece-lhe aí rico...
"Rico! Bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico! O que desejava era que voltasse e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar."
[...]
O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração. Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça, e chamou baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado, como se fosse praticar um grande crime:
-- Filho, olha que são horas, meu filho...»
 
 Trindade Coelho, Os Meus Amores, 3.ª edição, Mem Martins, Publicações Europa-América, s. d., pp. 60-62.
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Terça-feira, 1 de Dezembro de 2015

11.6.2006

Proxenetismo social. A propósito de um brinde do saudoso Expresso -- a bandeira nacional patrocinada pelo Banco Espírito Santo --, Alexandre Dias Pinto, n'O Tonel de Diógenes, elabora certeiramente a propósito dos principios que os nossos queridos capitalistas em geral põem alegremente entre parênteses quando se trata do dinheirinho. Veio-me logo à ideia gente como o Pais do Amaral ou o próprio Balsemão, que não têm escrúpulos em despejar em casa dos seus pobres concidadãos todo o lixo de que podem lançar mão -- lixo televisivo que, obviamente, eles, pessoas educadas, não vêem. A esta mentalidade chamou certa vez Assis Esperança, numa carta a Ferreira de Castro, a avidez da ganhuça. E quem ganha dinheiro a degradar espiritualmente os outros, só merece para a sua sórdida actividade o qualificativo com que intitulo este post: o de proxenetismo social.

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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2015

24.5.2006

Ainda não me habituei a este blogue temático. Por isso só hoje noticio o que teria sido oportuno há uns dias atrás: no passado sábado, dia 20, o Prof. Luís Manuel de Araújo, pioneiro da egiptologia em Portugal e seu nome mais destacado, esteve no Museu Ferreira de Castro, no âmbito das «Conferências no Museu», para falar da forma como o escritor viu e sentiu o país dos faraós. De três textos possíveis, dois canónicos e um da chamada «primeira fase» (pré-Emigrantes), o egiptólogo abordou uma noveleta publicada na revista ABC no último trimestre de 1923, folhetim intitulado «A Vingança do Pharaó», contemporâneo do achado de Howard Carter, texto desconhecido da generalidade dos leitores; seguiu-se a análise do ensaio d'As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963) no que respeita aos testemunhos egípcios. Por falar, e guardado para posterior artigo, ficaram as notas de viagem de Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-1938). Entre um e outro texto, do folhetim eivado de egiptomania da juventude ao sereno percurso pelas maravilhas artísticas do país do Nilo, medeiam cerca de quarenta anos. Ter lá estado fez toda a diferença.

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Terça-feira, 17 de Novembro de 2015

22.3.2006

[s/título] Estou, neste momento, a trabalhar no «Mas...» (1921) e vem-me um cheiro a tinta e papel velho mutuamente impregnados por força dos anos, e da força dos caracteres móveis. Este odor recorda-me manhãs e tardes que, há 19 anos, passei na Biblioteca da Ajuda a ler edições da «Gazeta de Lisboa», de 1746 a 1750. Inspiro repetida e profundamente o livrinho de 100 páginas e chego à conclusão: José Maria Ferreira de Castro e José Freire de Monterroio de Mascarenhas, o mesmo perfume.

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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2015

28.11.2005

JornaL. 1) Hoje foi lançado no Centro Cultural de Cascais (Gandarinha) o livro de João Moreira dos Santos, Duarte Mendonça -- 30 Anos de Jazz em Portugal, editado pela Câmara Municipal de Cascais. Repositório essencialmente fotográfico, tem esse grande mérito de recordar uma história em que Cascais mais uma vez se destacou, graças ao sócio de Duarte Mendonça, Luís Villas-Boas. Pessoalmente, recordou-me o concerto mais recuado que a minha memória conseguiu alcançar: tinha 15 anos, e já se manifestava o pendor rocker: no Pavilhão do Dramático de Cascais -- que viria também a ser conhecido pela «Catedral do Rock», lembro-me duma tarde de blues, e da guitarra de Buddy Guy, (Buddy Guy / Junior Wells Blues Band), 11 de Novembro de 1979 (ver p. 90).

 
2) O jornalismo como grupo profissional sempre primou pela sua razoável indigência. A literatura tem-no referido abundantemente, basta uma referência à caricatura do Palma Cavalão, d'Os Maias. De Eça de Queirós a Fernando Pessoa, de Ferreira de Castro a José Régio, poucos terão sido os escritores de valor que não tenham de alguma maneira execrado, com verdadeiro nojo, a inanidade periodística. Também alguns plumitivos desassombrados o têm feito, como sucede com João César das Neves -- de quem normalmente discordo, mas cuja frontalidade não me desagrada. Neves, que traça um retrato negro dos media no DN de hoje, escreve o seguinte: «Ver o relato jornalístico de algo em que participámos é ficar, em geral, com a sensação de ouvir a única pessoa na sala que não percebeu nada do que ali aconteceu.» Ou como diria o Álvaro de Campos, com aquela qualidade chã dos algarvios: «Ora porra! / Então a imprensa portugueza é / que é a imprensa portugueza? / Então é esta merda que temos / que beber com os olhos? / Filhos da puta! / Não, que nem / ha puta que os parisse.»
 
3) A ler: José Fernandes Pereira (dir.), Dicionário de Escultura Portuguesa (dir.) (Caminho).
 
4) A ouvir: Rui Veloso, Espuma das Canções.
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Quarta-feira, 29 de Julho de 2015

17.10.2005

Castro em Vila Franca (6 e final). Toda a obra de Ferreira de Castro está, pois, impregnada desse anarquismo. Ele é um libertário destacado, todos o sabiam na I República pelas posições tomou; todos continuaram a sabê-lo durante o Estado Novo, tanto na situação como na oposição. E sabiam-no os leitores.
O ponto de vista libertário está nos seus livros, não apenas desde Emigrantes, um manancial de assuntos, a começar pela questão da propriedade até ao tema da (ir)relevância da nacionalidade do proletário. Mas este questionamento, esta incomodidade de um escritor que se fez a si próprio num mundo espúrio, vem já desde esse ingénuo Criminoso por Ambição. E esse ponto de vista contempla o desdém pelo jogo político, o antitotalitarismo, o antimilitarismo, o anticolonialismo.
Idealista, fez uma profissão de fé num futuro redentor. Esse idealismo não estará, contudo, isento dos perigos das utopias que transformaram ideias libertadoras em sistemas de encarceramento. Parece-me, porém, que o libertário Ferreira de Castro, rebelde e inconformista, duma rebeldia viril sem autocomiseração, dificilmente cairia na armadilha dos pensamentos únicos.

Nota:
Serão lidas passagens de Emigrantes, Os Fragmentos e das «Mensagens» de apoio às candidaturas do MUD (1946) e de Norton de Matos (1949).

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Terça-feira, 28 de Julho de 2015

16.10.2005

Castro em Vila Franca (5). 

Tendo, em parte dos seus livros, o povo como tema, não o povo pitoresco, mas indivíduos pertencentes a determinados grupos sociais desfavorecidos, do emigrante ao seringueiro, da bordadeira ao contrabandista, passando pelo marçano, o pastor ou o operário têxtil, Ferreira de Castro foi o primeiro grande escritor içado do proletariado a operar uma transformação na perspectiva ideológica duma cultura, conseguindo, dessa forma, inscrever o seu nome individual no património literário nacional comum -- o que, convenhamos, não é pequeno feito.
António José Saraiva sustentou que ele «é o primeiro escritor português que não usa gravata.» (Iniciação na Literatura Portuguesa, Mem Martins, p. 158). Isto, que é um altíssimo elogio num país de literatos amanuenses, não significa a ausência de um apuro formal mais do que apropriado à intenção que ele tinha de comunicar-se intensamente. Tal como Régio, ele sentia-se acima de tudo escritor, e via as suas ideias veiculadas pelos livros como formas de servir a arte, e não o contrário... Lembremos as passagens avassaladoras sobre a floresta amazónica em A Selva, as cumeeiras do Barroso em Terra Fria, a tempestade, em A Lã e aNeve, os intensos diálogos interiores em A Curva da Estrada ou em A Missão, a investida dos índios ao acampamento de Nimuendaju em O Instinto Supremo, o primor dos textos memorialísticos, entre outros. Como escreveu Manuel Rodrigues Lapa, na sua clássica Estilística da Língua Portuguesa (4ª ed., Coimbra, p. 124), Castro é «um dos nossos mais elegantes prosadores».
Façamos também aqui um parênteses a propósito de um qualificativo que se tem colado a Ferreira de Castro, que de tão repetido se tornou num lugar-comum. A designação costumeira de «precursor do neo-realismo». No contexto nacional ela é imprecisa e irrelevante. Porque ou há várias maneiras de entender o neo-realismo, em que está sempre subjacente um conflito, um desajustamento social, a luta de classes, uma «tensão de devir», como diria Mario Sacramento, ou o neo-realismo tem de ser visto como a expressão artística de um desígnio político, que é o estar pelo menos de acordo com as posições do PCP sobre os diversos domínios em que a vida se exerce. Num contexto lato, direi, então, que Castro foi talvez o primeiro escritor neo-realista português , e não apenas um precursor; se o entendimento for restritivo, Castro que sendo um comunista libertário, um anarquista kropotkiniano, nunca quis pertencer ao PCP, não é neo-realista, nem precursor do neo-realismo, nem o seu romanceA Lã e a Neve, que muitos costumam referir como uma das obras referenciais desta corrente, a começar pelo próprio Álvaro Cunhal, pode, desta forma emparceirar com Fanga, de Alves Redol, ou os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes.
Claro que isto se prende com a matriz ideológica do escritor, essencial para o percebermos, e aos seus livros.
Como disse inicialmente, Castro foi um libertário, um anarquista. O que distingue os anarquistas de outros sectores revolucionários da esquerda é a sua resistência a tudo o que possa restringir a condição livre do ser humano, a única que lhe é natural. E esse tudo manifesta-se nas formas coercivas de organização social, cuja expressão última é o Estado, mas também nas organizações «adjacentes»: igrejas, forças armadas, partidos políticos, tudo enfim, que de alguma forma possa coarctar a expressão da individualidade. Daí que, regra geral, os anarquista se associem por grupos de interesses sócio-profissionais, tendo sido precisamente na área sindical que registaram maior êxito organizativo.
Mas culturalmente também, o anarquismo foi muito forte entre nós, durante a I República. Está ainda por conhecer por dentro o grupo de intelectuais que se exprimia em jornais como oSuplemento Literário Ilustrado do diário A Batalha, a revista Renovação e também o histórico semanário O Diabo, escrito e dirigido pelos anarquistas do grupo de Ferreira de Castro: Julião Quintinha, Jaime Brasil, Assis Esperança, Roberto Nobre, Mário Domingues, Nogueira de Brito, Pinto Quartim e vários outros.
 
(continua)
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Segunda-feira, 27 de Julho de 2015

15.10.2005

Castro em Vila Franca (4). Seguiu-se A Selva (1930). Livro intenso, poderoso, escrito com as entranhas, fruto da vivência dramática do seu autor, A Selva, aborda também um gravíssimo problema económico e social, o dos «retirantes» fugidos à seca no Ceará e no Maranhão em demanda de outros lugares que lhes permitissem viver, mas que no fundo só conheceriam um quotidiano de exploração e miséria. Tratando este assunto, Castro acabou porém por consagrar a floresta virgem como verdadeira e principal personagem, a realidade totalitária que esmaga o indivíduo, tornado um mero títere ao sabor do relacionamento imprevisível que os elementos vegetais estabelecem entre si naquele universo.

Narrativa única na nossa literatura, intensa, veio confirmar um notável escritor que com Emigrantes se houvera destacado da nulidade de um certo meio literato de jornalismo e cafés em que Lisboa era fértil. Ao mesmo tempo, começava a sucessão inusitada de edições d'A Selva noutros idiomas. Só para referir os anos trinta, aqui ao lado, Espanha, em 1931, uma casa de Barcelona lança a primeira versão castelhana. No ano aziago de 1933 sairia a edição alemã, com tradução de Richard A. Bermann, pseudónimo do escritor judeu austríaco Arnold Höllriegell, amigo de Stefan Zweig, que viria a evadir-se do seu país natal já após a anexação, vindo a morrer tuberculoso em Nova Iorque, em 1939, poucas semanas antes da data que combinara com Ferreira de Castro para ambos se reencontrarem ali, a salvo, na grande maçã... Esta tradução alemã foi fundamental para a difusão internacional do romance e do seu autor. Em 1934 temos edições no Brasil, na Checoslováquia (em checo) e em Itália; em 1935, no Estados Unidos e em Inglaterra; no ano seguinte, na Holanda e na Suécia, e até ao fim da década, uma tradução em servo-croata e a versão francesa de Blaise Cendrars, de 1938. É impressionante como um livro dum jovem autor de 32 anos, publicado numa editora de província de um país pobre e periférico, em 1930, conseguiu de forma tão rápida e tão incontestável um estatuto internacional.
Castro é um romancista consagrado. Os seus livros continuaram a granjear uma larga audiência e foram publicados no estrangeiro, com várias edições, sob várias formas (edições de bolso e clubes do livro): Eternidade (1933), Terra Fria (1934), A Tempestade(1940), A Lã e a Neve (1947), A Curva da Estrada (1950) A Missão (1954) e O Instinto Supremo (1968) foram as restantes ficções que publicou em vida.
As narrativas de viagens Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) e A Volta ao Mundo (1940-44) surgiram pela impossibilidade criadora a que Ferreira de Castro esteve sujeito pela Censura do Estado Novo. Impedido de escrever sobre o que lhe interessava, teve de enveredar por um género de tradição na literatura nacional. Também As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63) acabaram por participar desse périplo planetário do escritor, constituindo-se agora como uma viagem interior pela progressão do Homem através da arte.
Há textos abundantes de Ferreira de Castro sobre a Censura, declarações e entrevistas em que se lhe opõe veementemente. Os seus livros póstumos testemunham-no: Os Fragmentos (1974), incluem o romance O Intervalo, escrito cerca de 1936, parte de um projecto mais vasto intitulado «Biografia do Século XX» e que Castro se viu forçado a abandonar pela impraticabilidade de publicação, uma vez que essa biografia mais não era que o relato ficcionado das ideias de emancipação dos homens seus contemporâneos. Outro texto castriano censurado, tendo ficado inédito durante quase sessenta anos, foi a peça Sim, Uma Dúvida Basta, que aborda o tema, ainda hoje actualíssimo, da pena de morte.
 
(continua)
publicado por RAA às 23:45
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