Domingo, 26 de Fevereiro de 2017

2.2.2007

Não.  Às dez semanas, o ser que existe no ventre da mulher já é suficientemente humano para que o Estado e/ou a Comunidade se possam permitir a sua supressão sem razões ponderosas. Só aceito a eliminação de um feto se a vida da mãe correr perigo, se existiu violação (neste caso defendo que nem sequer se deve impor um prazo para a decisão da mulher) ou se se verificar uma malformação grave.

A pergunta que é feita aos cidadãos é duma esperteza saloia inqualificável, tão espertalhaça como defender que a 11 de Fevereiro iremos simplesmente pronunciar-nos sobre o um artigo do Código Penal.
O aborto clandestino é uma chaga social, é verdade. As mulheres que o praticam sujeitam-se aos maiores incómodos, devassas e humilhações, é um facto. As que podem, vão fazê-lo ao estrangeiro, sobejando para as pobres as curiosas, as abortadeiras e os queridos médicos abortadeiros.
Para começar: a estes, aos médicos abortadeiros e às parteiras da mesma igualha, gostava de vê-los na cadeia e irradiados da profissão.
Não concebo, com o país que temos, primitivo e boçal, que as mulheres sejam sequer levadas a julgamento. Isso foi proposto por Maria do Rosário Carneiro e Teresa Venda, e logo posto de lado porque o que interessava era «acabar com a humilhação», mesmo que a dita continuasse, como continuou. Freitas do Amaral e Manuela Eanes, entre outros, propuseram que ao crime de supressão de uma vida não correspondesse uma pena. É claro que apareceram uns chicos-espertos a dizer que «tinha de haver pena», que era uma absurdo jurídico e outros cacarejamentos, como se Freitas fosse um veterinário e não percebesse nada de leis.
Julgar e condenar mulheres de classe desfavorecida é uma injustiça, não só por muitas vezes lhes faltar informação, como por serem coagidas pelos maridos ou pais a abortarem, e ainda por lhes estarem vedados os simples meios de contracepção (já nem falo do torpedeamento da Santa Madre Igreja, à qual me referirei adiante): aos bonitos esposos de muito do nosso Portugal nem lhes pode passar pela cabeça que a sua mulher usa a pílula. Usar a pílula contraceptiva no país profundo, porco e boçal é meio caminho andado para os labregões imaginarem as mulheres deles no fornicanço cadeleiro -- que é o que eles conhecem e praticam.
 
Houvesse coragem política para tornar obrigatórias as consultas de planeamento familiar nos centros de saúde, tão obrigatórias como o é a vacinação -- com boletim e tudo --, para todos os adolescentes a partir dos catorze anos, e, em futuro próximo, outro seria, o panorama do aborto clandestino. É evidente que não haverá essa coragem. Se o «Sim» ganhar, está, para eles, o problema resolvido; se o for o «Não» a vencer, duvido que os partidalhos da esquerda -- sempre a contar votinhos, sempre a marcar pontinhos políticos à pala da «IVG» -- queiram defrontar o país conservador e a poderosa Igreja, promotora de sexualidade para eunucos, como bem demonstrou o Cardeal Patriarca e as suas patacoadas de educação sexual para a castidade (!)...
 
Sou ateu e voto à esquerda. O meu «Não» resulta da convicção de que não é lícito, a pretexto de problemas de saúde pública graves e problemas de civilidade igualmente agudos, permitir-se a destruição de fetos, que são, repito, seres humanos. Se após 11 de Fevereiro o aborto continuar a não ser livre, e nesse sentido votarei, espero que o Estado e a Sociedade assumam as suas responsabilidades, promovendo uma verdadeira reviravolta na política de planeamento familiar, para além do Sim carniceiro e do Não beato.
 

 

 

publicado por RAA às 17:37
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