Different strings. Quando pensava que o chamado rock progressivo, tão da minha predilecção, já havia dado tudo quanto tinha para dar, por exaustão, por autoplágio ou simplesmente por natural deriva para outras realidades sonoras (v.g. Gabriel, Hammill, Fripp), apareceram-me uns canadianos de Toronto -- aliás, já com meia dúzia de anos de estrada -- e um álbum intitulado sintomaticamente Permanent Waves (1980), como a querer dizer que havia mais rock para lá da new wave (enfim, já ela então também agonizante, ou em mudança). Guitarra potente, baixo criativíssimo com laivos jazzísticos, bateria pronta para tudo, sintetizadores q.b., voz adequada e facilmente identificável. Não me canso de os ouvir, desde essa época.
Humanidade
A doçura daquela
voz a tristeza daqueles
olhos o calor da
trompete de
Armstrong o segregado
desmentindo o ódio
Fabulástico. Fabulástico... A minha filha Joana chegou-se-me cá a casa com esta... Fabuloso? Fantástico? Espantástico!...
Querelas literárias. A propósito da leitura dos dois ensaios que compõem o voluminho Sobre o Romance Contemporâneo, publicado em 1940 e redigido um par de anos antes, na prisão:
ETC. Pelo http://almocrevedaspetas.blogspot.com (estou para ver como é que o link sai) soube da morte de Eduardo Teixeira Coelho/ETC/Martin Sièvre, pseudónimo que utilizou. Não é um autor da minha formação, conheço-o mal, o suficiente, porém, para reconhecer à distância o seu enorme talento. Poderia talvez ter sido um nome mais conhecido na Europa da BD se as circunstâncias que lhe condicionaram o percurso artístico (que em grande parte desconheço, para além da desvantagem da nacionalidade) tivessem sido outras. Não obstante, fez parte, este ano, da lista de autores estrangeiros nomeados para um prémio do Festival de Angoulême, o mais importante de todos. Aqui fica uma homenagem.
Pintura e bate-chapas. AutoAlmada não é um stand de automóveis, AutoColumbano não fica na avenida lisboeta, AutoManta não se especializou no mítico modelo da Opel; são simples abreviaturas de auto-retratos de alguns pintores n'«os meus documentos».
Sol de Junho
O sol de Junho irradia,
sem se extinguir a moinha
a chover-nos dentro.
Somos atravessados pela melancolia,
choro intenso de lágrimas secas.
Trazemos em nós o próprio feto,
que continuamente violentamos.
Boule, antes de Calvin. Boule e Bill, um rapazinho e o seu cocker spaniel, criação magnífica do belga Jean Roba, em 1959, foi uma das grandes séries da revista Spirou. Reli há pouco o primeiro álbum. Boule lembrou-me o seu congénere americano Calvin: ambos miúdos de palmo e meio, beneficiando da cumplicidade das respectivas mascotes, o bouleversement (desculpem, mas não resisti) do mundo adulto e dos seus códigos de conduta, uma notável disponibilidade do(s) autor(es) para estar(em) na pele duma criança, e simultaneamente uma grande inocência. Antes de se retirar, há cerca de dois anos, Roba escolheu Verron para lhe suceder. Boule e Bill são pouco conhecidos entre nós e estão inéditos em livro.
Here, there and everywhere. A genialidade dos fab four reside nisto: grandes canções, comerciais ou experimentais, pouco importa, trabalhadas como diamantes em bruto (passe o lugar-comum), que eles próprios lapidavam e o produtor George Martin, o quinto beatle, ajudava a burilar. Revolver, por exemplo, que acabo de ouvir, de 1966. Há quem diga ser o melhor álbum dos Beatles, opinião que requer alguma temeridade para ser defendida -- esta e outras, respeitantes a outros discos. Eu, por exemplo, tenho um fraco pelo Rubber Soul (1965). Cada LP da banda de Liverpool trazia uma mão-cheia de obras-primas, além de várias boas composições, acima da média. Neste aqui à mão, por exemplo:«Good day sunshine», «I'm only sleeping», «Yellow submarine», «Got to get you into my life», excelentes canções. Querem obras-primas do Revolver? Aqui vão: «Eleanor Rigby» «Here, there and everywhere», «For no one», «Tomorrow never knows»...
3,2,1... jazz! Acabo de ver, ouvir e ler o primeiro cd, e respectivo livreto, da colecção Let's Jazz em Público, dirigida por José Duarte e publicada pelo jornal de José Manuel Fernandes. Deixo aqui três momentos de exaltação: