Ou nós ou eles, escreve Pacheco Pereira na edição de hoje do «Público», a propósito dos acontecimentos de Londres. E eu, eu concordo... Com pena, pois, se ainda me lembro, o articulista foi um dos apoiantes da investida contra o Iraque, com lindos resultados, o que, aceitemos, não lhe retira o acerto da análise, ao contrário de Soares, que esteve do lado correcto, mas espalhando-se ao comprido nos últimos comentários, sobre umas famigeradas causas, que como já aqui escrevi, só lateralmente têm que ver com o que se passou. Defendamo-nos, pois, com tudo o que temos à mão, como diz Pacheco Pereira: «tropas, polícias, agentes de informações, à dentada (...)», se for preciso. É brutalmente simples, reconhece, mas não deixa de ser realista. Ao contrário, Helder Macedo, pessoa, escritor e intelectual respeitabilíssimo, também hoje na «Visão», parece-me que incorre nos erros de apreciação do costume, ao avisar-nos, com legítima preocupação, em relação aos excessos, em particular dos demagogos e duma tropa fandanga que lhes está adjacente. Tolerância, democracia, está tudo muito bem, creio que os ingleses serão os últimos a cair em tentações estranhas. Não lhes peçam, porém, que se deixem imolar. Ou somos intolerantes com a intolerância ou, aí sim, capitularemos.
A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (3). "Eu devia êste livro a essa Amazonia longínqua e enigmática, pelo muito que fez sofrer os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu para o resto da vida. E devia-o, sobretudo, aos anónimos desbravadores, gente humilde que me antecedeu ou acompanhou na brenha, gente sem crónica definitiva, que à extracção da borracha entrega a sua fome, a sua liberdade e a sua existência. Livro bárbaro, como a vida que enquadra, como o scenário que lhe serve de fundo, êle completa em muitos pontos, à margem do entrecho, o meu romance «Emigrantes».
A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (2). Entre 28 e 31 deste mês irá decorrer em Oliveira de Azeméis um congresso internacional sobre este livro magnífico de Ferreira de Castro. Participarei com uma comunicação sobre as ideias anarquistas do escritor. Até lá, postarei passagens do romance susceptíveis de serem trabalhadas por esse prisma, com eventuais comentários ou anotações. As edições utilizadas serão a 1ª, da Livraria Civilização, Porto, 1930 e a 32ª, de Guimarães & Cª. Editores, Lisboa, 1980.
Franja
A franja esconde
-te os olhos grandes.
O vestido justo molda
-te as coxas exuberantes,
tão descaradas como
os teus grandes olhos
escondidos pela franja.
Song of Aeolus. A propósito das nortadas de Cascais, Eça de Queirós escreveu certa vez a sua mulher que a vila era a «caverna de Eolo», deus dos ventos. Quem conheça Cascais e a fama do Guincho sabe que é assim; e quem por cá vive, experimentou-o bem na passada semana. Veio-me este arrazoado meteorológico quando ouvia o álbum Softs (1976), dos Soft Machine, grupo britânico de fusão, e em particular a faixa intitulada «Song of Aeolus», da autoria do teclista Karl Jenkins. Nela sobressai o guitarrista de então, John Etheridge, apesar de tudo um guitar-hero do rock, por muito jazzística que tivesse sido esta progressiva banda.
Um alto saxofonista. Cheguei há pouco do Parque Palmela, acabado de ouver (como diz o José Duarte) a Charlie Parker Legacy Band, assinalando o 50º aniversário da morte de um dos criadores do bebop. Veterania da secção rítmica (J. Cobb, R. Drummond e R. Mathews), que chegou a empolgar-me; juventude nos três saxes-alto (W. Anderson, J. Davis e V. Herring). Vincent Herring, diz o programa, começou a ganhar a vida como músico de rua, acabando, porém, a tocar com grandes nomes do jazz, de Hampton a Blakey. Executante excepcional me pareceu ele esta noite. Se houvesse a ventura de ser músico, quereria sê-lo como Herring.
Hoje não quero saber das mentiras do Bliar, dos crimes do gang do Bush, nem das provas que o Barroso diz ter visto da existência de armas de destruição maciça no Iraque. Estive na manifestação contra a guerra, e ainda bem que mostrámos o nosso nojo pela repugnante aldrabice. Mas o que se passou hoje só lateralmente tem que ver com a vigarice americana. Há ratazanas a espalhar a peste, indiscriminadamente. O que se faz às ratazanas?
Sinto-me a nevar. Cada vez que tiro a camisa cai-me pele em flocos.
You don't know what love is. You Don't Know What Love Is, peça de Eric Dolphy. Multi-instrumentista (sax alto, clarinete baixo e flauta), sopra na transversal magnificamente, num registo de 2 de Junho de 1964. Não foi por isto, porém, que resolvi postar. Grande música existe felizmente em abundância, e esta é-o, indubitavelmente. Comoveu-me, numa composição de abertura triste, o arco do contrabaixo a afagar a flauta, a informação que me deu o José Duarte no vol. 5 do Let's Jazz em Público, que lhe é inteiramente dedicado: poucos dias após o concerto, a 29 de Junho, o músico morreria, com 36 anos. Estava eu a nascer quando Dolphy se despedia da música e da vida. Entre uma data e outra.
Alberto João e os asiáticos. Imaginem o que seria o Tabo Mbeki ou o Hugo Chavez dizerem em público que não queriam lá nas respectivas terras os labregos madeirenses, porque feios, porcos e até, talvez, maus?