Imitamo-nos uns aos outros. Alguns têm o talento de tornar a cópia pessoal, quase tudo parecendo arrancado das entranhas. Há quem assuma a paráfrase reverencialmente, com bibliografia vasta e notas de rodapé; e também há os que produzem meras contrafacções. Aos mais afortunados reconhece-se-lhes um veio intertextual.
Alegre vs. Cavaco. É só para dizer que o debate ontem correu muito bem, a ambos. Sereno e elegante para com Cavaco, político na acepção mais elevada, Alegre tem à esquerda os seus reais adversários. Terá de arrumar com Soares, evidenciando como a candidatura deste é politicamente aberrante num estado moderno e europeu; provavelmente, até ao dia do debate o próprio Soares já terá percebido que o país há muito perdeu a pachorra para gramar outra vez a sua magistratura de influência. Chega. Alegre terá também que pôr Jerónimo no sítio e, se for preciso, perguntar-lhe onde estava antes do 25 de Abril, para ver se o diligente secretário-geral, que anda há um ano a pastorear o rebanho, encaixa; e finalmente mostrar que Louçã é um produto marginal e suburbano, uma espécie de irritação cutânea, por enquanto nada de muito sério que não passe com uma pomada bem aplicada. Uma palavra para Cavaco: terá sempre as suas insuficiências, como todos nós, mas em dez anos ganhou um estofo visível de estadista. Eu também dormirei tranquilo se Cavaco for eleito. Mas, para já, estou com o Manuel Alegre.
Hoje há palhaços. Nesta quadra do Natal, era hábito irmos ao circo do Coliseu, e lá surgia a inevitável parelha de palhaço rico e palhaço pobre, com aquela fala arrevesada que os caracteriza(va) e que nunca me cativou. O palhaço de carne e osso que mais me deslumbrava, e de que guardo uma terna memória televisiva, era um (já então) velhote suíço que tocava guitarra e uivava para a lua. Foi aliás na televisão que me apareceram uns desenhos animados de um palhaço, desta vez sem sotaques postiços, mas estranhamente dobrado em francês, chamado Bozo le clown. Eu, que sempre gostei do francês e da sua sonoridade, perdia a paciência com estes cartoons de Hollywood, que alguém na RTP encomendara assim defeituosos. Mas o meu palhaço foi sempre o Sacarrolha, o maior (e único) clown do Grande Circo Kabum. Criação do italiano Primaggio Mantovi, desde criança radicado no Brasil, Sacarrolha chegou-me a casa um belo sábado ao fim da manhã, aí por 1971/72, pelas mãos da minha Mãe, numa revistinha brasileira de papel de jornal publicada pela Rio Gráfica Editora. Custava 3$00 e eu já mandei encadernar todos os exemplares. É pura magia infantil. Acho que o Brasil deveria redescobri-lo, e à sua troupe circense.
escreves escreves escreves
escreves escreves escreves escreves
nada do que dizes rompe a superfície do papel
escreves escreves escreves escreves
entre o panache e a autocomiseração
o artifício e a louvaminha
o lacrimejar e a traição
escreves escreves escreves escreves
e tudo quanto escreves escreves escreves
escreves tem o selo de validade para hoje
promoção de último modelo
gravata de saldo
embuste de tablóide
passatempo de televisão
assim não foi assim é
assim será
His holy modal majesty. Mike Bloomfield. Há blues branco? Pergunta disparatada. Basta ir às discotecas com a respectiva secção para vermos que nem todos os músicos têm a tez escura... Há blues branco, há blues europeu (de John Mayall a Rory Gallagher), há blues tão branco que até é tocado por albinos, como é o caso de Johnny Winter, colaborador de eleição de Muddy Waters... Bloomfield foi um judeu de Chicago -- cidade dos blues, portanto --, guitarrista de outro judeu importante, um Zimmermann mais conhecido por Dylan; enquanto tal, é seu o dedilhar (também) eléctrico no álbum Highway 61 Revisited e na mítica «Like a rolling stone». Viveu e morreu num tempo que se esteve razoavelmente nas tintas para os blues; e ele respondeu com a progressiva degradação artística (faria música para filmes porno), e física, até ser encontrado morto por overdose no seu automóvel, ainda não completara os 38 anos. A ouvir, oh a ouvir!