Terça-feira, 24 de Novembro de 2015
(En)canto de amor e de morte. Há muito que não via um realizador tão enamorado da actriz principal [sobre The New World, de Terrence Malick]
Homem ao mar
No vale onde me encontro
ouço os sinos das igrejas
a darem as horas certas.
O vento é o meu nevoeiro,
o badalar é o mugir do meu farol.
Homem das cidades marítimas,
sinto o cerco dos montes, dos penedos, da floresta.
Sei que há lobos,
javalis escondidos,
cavalos selvagens pastando solitários.
O pio nocturno da coruja
não me deixa esquecer onde estou.
Agosto de 2000
Seis Composições Outonais
Segunda-feira, 23 de Novembro de 2015
A falar fininho. O índio Morales resolveu, como presidente democraticamente eleito da Bolívia, ter uma palavra a dizer sobre a exploração dos recursos naturais do seu país. Os governos dos estados a que pertencem as empresas visadas mostraram uma natural preocupação pelo ditame do Cocalero. Mas, como é óbvio, estão a dialogar, no que são acompanhados -- de acordo com as últimas notícias -- pela Petrobras e pela Repsol, que já fizeram saber da sua aceitação de princípio das reivindicações bolivianas.
Decisão politicamente legítima, embora controversa, foi acolhida entre nós com aquela histeria a que nos habituaram alguns plumitivos esportulados. Cheguei a ler que era uma medida que retirava «credibilidade» ao país, dificultando a atracção do investimento estrangeiro... Ora a Bolívia, que não é propriamente o Canadá, ou sequer a Argentina, nunca até agora foi particularmente conhecida pela credibilidade... Mas para os escreventes amestrados, que não sabem ver para além da sua carteira de títulos, todos os particularismos -- como a circunstância de grande parte daquela população viver em extrema pobreza, independentemente dos governos credíveis e amigos das empresas que tem conhecido ao longo das décadas -- são irrelevantes. Há que debitar pela cartilha, com autoridade e voz grossa.
As multinacionais, como não podem deslocalizar o subsolo boliviano, contemporizam, que remédio!, pelo menos até o índio Morales ser apeado ou comprado. Mas, para já, comove vê-las a falar tão fininho...
Clarinet a la King. Se há coisa de que gosto no Benny Goodman, o proclamado «Rei do Swing» nas décadas de 1930-40, é -- para além das suas qualidades de clarinetista e chefe de orquestra -- aquele ar sempre happy, de quem se sentia bem na sua pele...
Domingo, 22 de Novembro de 2015
Diálogo.
EU-- Vamos ver o Bambe?
FILHA + NOVA (desdenhosa) -- Não é Bambe!
EU -- Então?
FILHA + NOVA (assertiva) -- ...é o Baaami!
Sábado, 21 de Novembro de 2015
Rima imperfeita.
Quem não faz bem a uma pessoa, faz-lhe mal...
Gorki
Que ficará duma vida tão plenamente cumprida, prolongada nos filhos e nos netos, da bondade para além das vazias palavras de circunstância, praticada cada dia sem olhar a quem? Que ficará, senão a memória do terno riso sofrido da minha Mãe? Bondade e eternidade, imperfeitíssima rima.
Sexta-feira, 20 de Novembro de 2015
Rosto humano. Salgueiro Maia / um homem grande / num país minúsculo
Fiat 850 Coupé. Tanto a dizer sobre o Fiat Coupé, que seria virtualmente impossível e certamente fastidioso eu estar para aqui a desfiar as minhas memórias deste carro, o modelo que a minha Avó Zé teve entre 1967 e 1974... Lembro apenas que as linhas desportivas deste pequeno Fiat resultavam num tormento para os adultos que tinham o azar de ir no banco de trás: o design coupé fazia com que as suas cabeças ficassem literalmente encostadas ao vidro... Eu, miudíssimo ainda, pouco me importava com as reclamações dos crescidos e divertia-me a gozar aquelas linhas modernas verde-garrafa -- e a observar a prodigiosa falta de jeito da minha Avó Zé para estacionar...
Quinta-feira, 19 de Novembro de 2015
GUINCHO
O sol põe-se
sobre o lento bater das ondas,
e despede-se
do meu corpo de areia.
Seis Composições Outonais
2001
Em nome da decência. No próximo dia 19 de Abril, quarta-feira, assinalam-se os 500 anos de um massacre de quatro mil judeus portugueses em Lisboa. Associo-me ao apelo da Rua da Judiaria: nesse dia, quem puder vá ao Rossio e acenda uma vela em memória de todos e cada um desses supliciados. Eu preguiçoso me confesso, não sei se lá estarei, mas farei por isso, em nome da decência e da memória. Um país sem memória não é um país decente.