Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015

1.8.2006

Uns mariconços. Achei sempre um piadão ao Alberto João (a rima atesta a veracidade); lembra-me muito um velho bêbedo cá de Cascais, o Marcial, que só não digo que Deus tem, porque ele próprio se dizia Deus. Nós, os miúdos, espicaçávamo-lo e tumba!, ora se punha a lançar anátemas, ora em pregação, agarrado a um grande crucifixo que trazia ao pescoço, ou levantava enigmaticamente os olhos para o céu -- não para pedir por nós, uma vez que ele era Deus e, portanto, tudo podia. Tinha uma carinha rechonchuda, assim do tipo do conhecido madeirense.

Quanto ao Jaime Ramos, naquela festa foleira do Chão da Lagoa, recordou-me um ser que nunca vislumbrei pessoalmente, um espectro cuja lenda chegou até aos dias de hoje. Era um característico, um atrasado mental que por 5 tostões emitia ventosidades com estrépito pelo ânus -- o vulgar traque. Como o Jaime Ramos é um especialista em retretes, está explicada a associação espúria.

Agora o PSD nacional (segundo o Público de hoje) e o comandante Azevedo Soares -- que até foi candidato à presidência cá do burgo -- a fingirem que não é nada com eles, pois é..., pois é..., e tal, estamos numa democracia, a expressão é livre, há que respeitar, e patati e patatá... Com franqueza, se isto não é um partido de mariconços!...

publicado por RAA às 18:14
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30.7.2006

Rob Roy. Tudo se passou num segundo, quando o juiz-de-fora saiu da estalagem situada na clareira da floresta. Nem tivemos tempo de estranhar a inquietação das montadas. Das Highlands desceram os malditos jacobitas, ululando selvaticamente, cobertos com os tartans coloridos de cada tribo. Só eu, escrevente dos autos, escapei com vida. Poupou-me o que parecia ser o chefe, para que pudesse espalhar a mensagem em Londres: «Lembrem-se de Culloden!»

De «Três estórias com data» (1994)

publicado por RAA às 13:45
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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2015

28.7.2006

Portugal é um país viável? Há cerca de dez anos, visitei o Centro Cultural Manuel de Falla, em Granada, integrado num grupo de trabalho. O dirigente da instituição guiava-nos pelas magníficas instalações, quando, sem que o esperássemos, abriu uma porta, deparando-nos então com um grande anfiteatro cheio de crianças granadinas do ensino primário, assistindo a um concerto pedagógico realizado pela sinfónica local. Em Granada, que não é a primeira nem a segunda ou a terceira, sequer a quarta cidade de Espanha. Fui nessa altura tomado por uma grande incomodidade interior ao confrontar-me, por contraste e sem preparação prévia, com a nossa paupérrima realidade.

Vem isto a propósito da notícia das últimas horas sobre Maria João Pires e o seu auto-exílio no Brasil. Poderia agora desenvolver o tema nos seus vários aspectos, mas não tenho pachorra. A verdade é que Portugal é um país sem elites -- e isso sente-se dolorosamente no dia-a-dia, em cada dia, todos os dias. «Somos um país que não presta.» -- parece ter sido o desabafo de António Victorino de Almeida à Antena 1. Terrível, mas tão próximo da mais crua verdade...

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26.7.2006

[s/título] joacão veríssimo serrim

publicado por RAA às 13:32
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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2015

26.7.2006

Épica. Ao almoço, só mulheres feias. Findo o jornal, declina-se-me a cabeça para a salada de frutas.

publicado por RAA às 18:13
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Domingo, 13 de Dezembro de 2015

20.7.2006

«...um território no qual os outros lutam.» Esta a definição desalentada do historiador libanês (cristão maronita) Georges Corm, em entrevista ao Público de hoje. Eis a tragédia daquele estado árabe, um país que alcançara um frágil equilíbrio entre as suas confissões (maronitas, xiitas, sunitas, drusos), após uma devastadora guerra civil.

Israel tem um problema original: o da sua criação forçada pela má consciência ocidental, que, em 1917, na Declaração Balfour, deu à nação judaica a grande expectativa de criação de um estado na Palestina -- aspiração que não mais poderia ser protelada após o inominável Holocausto. Só que o apaziguamento do remorso europeu foi feito à custa da população árabe, que era a maioria. E aí estão, dolorosamente, passadas décadas, os milhares de deslocados palestinos à força, espalhados pelos países limítrofes.

Não o posso esquecer, até porque sempre tive simpatia pela nação judaica e pela sua respeitável organização democrática interna. Isto não obstante considerar da maior justiça -- e da maior urgência, acrescentaria -- a criação do estado da Palestina.

A destruição em curso no Líbano é confragedora. O delicado equilíbrio político conseguido após, repito, uma longa guerra civil, estava a permitir àquele país uma paulatina normalização, um ambiente de desenvolvimento, um clima de cosmopolitismo que sempre foi o seu -- e que os milhares de estrangeiros de muitas nacionalidades que agora fogem dele demonstram cabalmente.

O que leva um país como Israel a perpetrar uma destruição desta amplitude? Não colhe o argumento do rapto dos soldados: a desproporção da reacção é tal que o argumento ganharia contornos do mais intolerável racismo, que é o de a vida de cada soldado valer cerca de cem civis libaneses mortos entretanto, sem que estas existências merecessem um esforço para que a crise fosse solucionada pela diplomacia. Essa não pode ser a razão, nem acredito que seja a medida de Olmert, de Peretz e muito menos de Perez.

Israel, sempre acossado pelos vizinhos, sente agora o perigo real das ameaças iranianas, verifica as dificuldades americanas na demência iraquiana e no impasse afegão, constata a impotência europeia, entre o embaraço e a duplicidade. Trata-se, portanto, de uma guerra de sobrevivência -- uma guerra suja, mas de sobrevivência.

A par da tentativa de neutralização do Hezbollah, improfícua a prazo, no quadro de correlação de forças actual, há ali uma demonstração de poderio, um possível posicionamento estratégico dentro do país do cedro e avisos vários feitos a sírios e iranianos, à custa dos fracos libaneses. Resta é saber se um Líbano estraçalhado e não um Líbano estabilizado -- esse Líbano que extasiou Eça de Queirós na sua viagem oriental de 1869 -- servirá os interesses de Israel.
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Sábado, 12 de Dezembro de 2015

19.7.2006

Spinning-Jenny. Dentro da casa coberta de colmo, a panela ao lume exalando o aroma da farinheira, o artífice trabalhava ao lado do filho mais velho. Por entre as portadas semicerradas da sala-oficina, via chegar os bufarinheiros que lhe vendiam as matérias-primas necessárias às suas manufacturas. Certo dia, surgiu um homem de pêra e risco ao meio, à frente de muitos operários. Açulados pelo capataz, ergueram um grande edifício que lhe disseram ser uma fábrica, onde, no interior, pontificava um grande relógio. A lareira da sala-oficina na casa coberta de colmo deixou então de aquecer o almoço, agora acomodado entre as paredes estreitas de uma marmita.

 

de «Três estórias com data» (1994)

publicado por RAA às 16:19
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Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2015

16.7.2006

[s/título] No restaurante onde almoço regularmente tive um dia destes a vizinhança de quatro académicos turcos, em Portugal ao abrigo de um programa comunitário. Estão a gostar imenso do país, mas lamentam a profusão de pratos com carne de porco que lhes são oferecidos nas ementas das casas de pasto. Um deles, que vivera nos Estados Unidos, disse-me, com certa solenidade: «We don't eat pork.» Intimamente senti o incómodo de estar diante de gente aberta na aparência, europeus como o quis Ataturk, e -- sempre para mim --, lamentei estes simpáticos scholars, já atingidos pela peste do fundamentalismo religioso e inibidos pelo seu preceituário negro. Porque, das duas, uma: ou eles são realmente observantes e repelem as bifanas (o que, para um laico como eu-- de formação católica, embora --, faz tanto sentido como privar-me de comer um bife à Trindade por ser sexta-feira); ou, também não muito tranquilizador, assumem com esta atitude, uma «etnicidade» vincada, atitude que, a generalizar-se, dificultará a sua entrada na UE, entre outras consequências pouco simpáticas.

E pensar que, há vinte e tal anos, por esta altura do ano, confraternizava descontraidamente num café de Paris com um grupo de argelinos, refrescando a noite de verão a sumos e... cerveja!
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12.6.2006

Diálogo Norte-Sul

 

o
ão
ção
ação
lação
ulação
mulação
umulação
cumulação
acumulação
cumulação
umulação
mulação
ulação
lação
ação
ção
ão
o

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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015

11.7.2006

Altíssima Idade Média. Depois do interessante projecto de investigação antropológica dos restos mortais de D. Afonso Henriques (sem contar com o anedotário burocrático...), leio que uma equipa de arqueólogos da Universidade do Minho pôs a descoberto a basílica de S. Martinho de Dume, «o apóstolo dos suevos» (século VI), um dos autores fundamentais do cristianismo peninsular, cujos escritos são, em alguns casos, uma preciosa fonte para o conhecimento dos povos daquela região do noroeste.

Em Portugal há grandes arqueólogos, como Cláudio Torres, Luís Raposo, há os que sujam as mãos no terreno, batem-no ao longo dos anos, conhecem cada acidente, cada afloração, como sucede com Guilherme Cardoso, autor da Carta Arqueológica do Concelho de Cascais, entre outros; e depois existe uma cáfila que se ocupa de ninharias, de porcarias, repartida por grupos de intriguistas à cata de subsídios, e que gastam as energias torpedeando-se uns aos outros.

Se isto é sinal de que estamos a dar o salto para um outro patamar de investigação, excelente.

publicado por RAA às 18:35
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