Uns mariconços. Achei sempre um piadão ao Alberto João (a rima atesta a veracidade); lembra-me muito um velho bêbedo cá de Cascais, o Marcial, que só não digo que Deus tem, porque ele próprio se dizia Deus. Nós, os miúdos, espicaçávamo-lo e tumba!, ora se punha a lançar anátemas, ora em pregação, agarrado a um grande crucifixo que trazia ao pescoço, ou levantava enigmaticamente os olhos para o céu -- não para pedir por nós, uma vez que ele era Deus e, portanto, tudo podia. Tinha uma carinha rechonchuda, assim do tipo do conhecido madeirense.
Quanto ao Jaime Ramos, naquela festa foleira do Chão da Lagoa, recordou-me um ser que nunca vislumbrei pessoalmente, um espectro cuja lenda chegou até aos dias de hoje. Era um característico, um atrasado mental que por 5 tostões emitia ventosidades com estrépito pelo ânus -- o vulgar traque. Como o Jaime Ramos é um especialista em retretes, está explicada a associação espúria.
Agora o PSD nacional (segundo o Público de hoje) e o comandante Azevedo Soares -- que até foi candidato à presidência cá do burgo -- a fingirem que não é nada com eles, pois é..., pois é..., e tal, estamos numa democracia, a expressão é livre, há que respeitar, e patati e patatá... Com franqueza, se isto não é um partido de mariconços!...
Rob Roy. Tudo se passou num segundo, quando o juiz-de-fora saiu da estalagem situada na clareira da floresta. Nem tivemos tempo de estranhar a inquietação das montadas. Das Highlands desceram os malditos jacobitas, ululando selvaticamente, cobertos com os tartans coloridos de cada tribo. Só eu, escrevente dos autos, escapei com vida. Poupou-me o que parecia ser o chefe, para que pudesse espalhar a mensagem em Londres: «Lembrem-se de Culloden!»
De «Três estórias com data» (1994)
Portugal é um país viável? Há cerca de dez anos, visitei o Centro Cultural Manuel de Falla, em Granada, integrado num grupo de trabalho. O dirigente da instituição guiava-nos pelas magníficas instalações, quando, sem que o esperássemos, abriu uma porta, deparando-nos então com um grande anfiteatro cheio de crianças granadinas do ensino primário, assistindo a um concerto pedagógico realizado pela sinfónica local. Em Granada, que não é a primeira nem a segunda ou a terceira, sequer a quarta cidade de Espanha. Fui nessa altura tomado por uma grande incomodidade interior ao confrontar-me, por contraste e sem preparação prévia, com a nossa paupérrima realidade.
Vem isto a propósito da notícia das últimas horas sobre Maria João Pires e o seu auto-exílio no Brasil. Poderia agora desenvolver o tema nos seus vários aspectos, mas não tenho pachorra. A verdade é que Portugal é um país sem elites -- e isso sente-se dolorosamente no dia-a-dia, em cada dia, todos os dias. «Somos um país que não presta.» -- parece ter sido o desabafo de António Victorino de Almeida à Antena 1. Terrível, mas tão próximo da mais crua verdade...
[s/título] joacão veríssimo serrim
Épica. Ao almoço, só mulheres feias. Findo o jornal, declina-se-me a cabeça para a salada de frutas.
Spinning-Jenny. Dentro da casa coberta de colmo, a panela ao lume exalando o aroma da farinheira, o artífice trabalhava ao lado do filho mais velho. Por entre as portadas semicerradas da sala-oficina, via chegar os bufarinheiros que lhe vendiam as matérias-primas necessárias às suas manufacturas. Certo dia, surgiu um homem de pêra e risco ao meio, à frente de muitos operários. Açulados pelo capataz, ergueram um grande edifício que lhe disseram ser uma fábrica, onde, no interior, pontificava um grande relógio. A lareira da sala-oficina na casa coberta de colmo deixou então de aquecer o almoço, agora acomodado entre as paredes estreitas de uma marmita.
de «Três estórias com data» (1994)
Diálogo Norte-Sul
o
ão
ção
ação
lação
ulação
mulação
umulação
cumulação
acumulação
cumulação
umulação
mulação
ulação
lação
ação
ção
ão
o
Altíssima Idade Média. Depois do interessante projecto de investigação antropológica dos restos mortais de D. Afonso Henriques (sem contar com o anedotário burocrático...), leio que uma equipa de arqueólogos da Universidade do Minho pôs a descoberto a basílica de S. Martinho de Dume, «o apóstolo dos suevos» (século VI), um dos autores fundamentais do cristianismo peninsular, cujos escritos são, em alguns casos, uma preciosa fonte para o conhecimento dos povos daquela região do noroeste.
Em Portugal há grandes arqueólogos, como Cláudio Torres, Luís Raposo, há os que sujam as mãos no terreno, batem-no ao longo dos anos, conhecem cada acidente, cada afloração, como sucede com Guilherme Cardoso, autor da Carta Arqueológica do Concelho de Cascais, entre outros; e depois existe uma cáfila que se ocupa de ninharias, de porcarias, repartida por grupos de intriguistas à cata de subsídios, e que gastam as energias torpedeando-se uns aos outros.
Se isto é sinal de que estamos a dar o salto para um outro patamar de investigação, excelente.