Fastio. A cerveja «Sagres» encheu de cores nacionais o restaurante onde costumo almoçar: a bandeira com o nome do estabelecimento, além de garridas tarjas e tarjetas. Os empregados de mesa envergavam patrióticas camisolas com a esfera armilar. Para ajudar, o ecrã gigante sintonizado na sport tv vomitava portugaaaaaaall com estrilho, seguindo-se o respectivo patrocinador. Perde-se logo a vontade de apoiar.
Espera. A noite fechada trouxe-me cá fora, ao alto portão de ferro. Agarro-me às grades como um escravo da luz de breu. Passo o portão e em dois passos estou na abadia que parecia distar léguas. Um cheiro fétido a suor e burel revelam-me um monge que me fita silencioso. Trespassa-me uma ventania de claustro e o piso, antes terroso, é agora de pedra. Não consigo articular uma palavra, apenas sons abafados pelos sinos que me ensurdecem. Os olhos, de dentro do capuz, indicam-me agora um rectângulo na laje. Gravado está o meu nome, o dia do meu nascimento, e o desta noite.
Agosto de 2000
Seis Composições Outonais
[s/título] ...e vergonha na cara, quem sabe o que é?
Proxenetismo social. A propósito de um brinde do saudoso Expresso -- a bandeira nacional patrocinada pelo Banco Espírito Santo --, Alexandre Dias Pinto, n'O Tonel de Diógenes, elabora certeiramente a propósito dos principios que os nossos queridos capitalistas em geral põem alegremente entre parênteses quando se trata do dinheirinho. Veio-me logo à ideia gente como o Pais do Amaral ou o próprio Balsemão, que não têm escrúpulos em despejar em casa dos seus pobres concidadãos todo o lixo de que podem lançar mão -- lixo televisivo que, obviamente, eles, pessoas educadas, não vêem. A esta mentalidade chamou certa vez Assis Esperança, numa carta a Ferreira de Castro, a avidez da ganhuça. E quem ganha dinheiro a degradar espiritualmente os outros, só merece para a sua sórdida actividade o qualificativo com que intitulo este post: o de proxenetismo social.
E porque não? E porque não, um dia do cão? Tudo que contribua para ajudar a civilizar um país ajavardado como o nosso querido Portugal é positivo e tem o meu apoio. Eu gosto de cães e aprecio o civismo. Os cães já nós temos...